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O Dilema das Redes

O Dilema das Redes, filme lançado recentemente pela Netflix, leva ao grande público o debate sobre o poder de manipulação das redes sociais e suas consequências.

Imagine que estamos em uma mesa de jantar nos anos 90 e surge uma das típicas diputas sobre um dado de um país, digamos sobre saúde pública. Certo, nessa época a internet já fazia parte do cotidiano da vida da classe média em diversos lugares do mundo, mas ainda não era possível “dar um google”. Considerando os sites de busca precários, o acesso à informação passaria por uma consulta em sites da OMS, OCDE ou outra organização mundial. Valeria consultar um amigo pedindo um conselho de uma boa base de dados.

A internet dos anos 90 era como um grande livro com índice bastante precário, em que era preciso navegar muito para chegar ao lugar planejado. Em contrapartida, os intermediários entre nós e a informação eram muito menos poderosos. Esse espaço virtual foi perdendo seu aspecto de vilarejo com vários terrenos baldios para se transformar em um conglomerado de shopping centers e parques de diversão. Um universo bem indexado, pelo menos aos leigos, em que a maior parte do tempo é gasta vendendo seu próprio potencial de consumo.

É esse o estágio do uso da tecnologia que o recém-lançado documentário O Dilema das Redes, da Netflix, pretende apresentar. O documentário leva ao grande público o debate sobre o poder de manipulação das redes sociais e suas consequências. Abordando temas que vão de depressão e suicídio à desestruturação da democracia, a narrativa confronta o espectador às suas próprias vulnerabilidades, exploradas pelas grandes empresas do setor. O debate transcende a bolha daqueles que estão familiarizados a este tipo de questionamento, mas traz, em diversos pontos, uma abordagem rasa e mesmo problemática das questões tratadas.

Com mérito técnico e de fácil compreensão, O Dilema das Redes apresenta ex-engenheiros de altos cargos em grandes empresas de tecnologia, especialmente as GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon), que testemunham seus impasses éticos com seus antigos trabalhos. A partir desses relatos, explica-se o mecanismo de lucro dessas empresas, que buscam explorar a natureza humana a fim de nos manter o maior tempo possível conectados às suas plataformas. Nosso estilo de vida, opiniões e rotina são vendidos aos interesses de anunciantes que visam não só nossa atenção, mas também controle, mesmo que sutil, de nossos hábitos de consumo.

Embora os engenheiros programem os algoritmos que regem as redes, eles não são capazes de prever seu comportamento quando apresentados à quantidade colossal de dados que recebem. Nesse ponto, a própria estrutura de funcionamento do chamado deep learning dificulta o diagnóstico sobre os efeitos sociais desses algoritmos. A consciência do potencial destrutivo dessa ferramenta chega pelas próprias consequências sociais e individuais, e a percepção negativa das empresas cresce à medida que esses problemas ganham notoriedade.

O documentário explora a manipulação da vida cotidiana, utilizando partes de ficção para sensibilizar o público. Trabalha com dados sobre o agravamento dos problemas de ansiedade e depressão, mas, na maior parte do tempo, faz uma abordagem mais explicativa do que estatística, passando pela representação de uma família devastada pelas redes sociais. Nesse quesito, o roteiro parece bem-sucedido em convencer o espectador dos riscos da exploração econômica dessas tecnologias, bem como em explicar o modelo de negócio dessas empresas.

Foto por Oladimeji Ajegbile em Pexels.com

Há, no entanto, um equívoco na escolha dos que contam a história e, consequentemente, em suas narrativas. Ao priorizar ex-engenheiros que ajudaram a criar os tais aparatos tecnológicos, a impressão que deixa o documentário é de que a percepção do potencial danoso na atual configuração das grandes empresas de tecnologia é recente e que a descoberta parte essencialmente das próprias pessoas que criaram esses algoritmos.

A verdade é que o problema sempre foi visível e previsível, de forma que a escolha social tenha sido feita muito antes. Desde 1970, o movimento Software Livre, liderado na época por Richard Stallman, defendia um mundo onde os algoritmos estariam disponíveis a qualquer pessoa. O problema controverso do direito à propriedade intelectual dos códigos já foi, desde então, estudado por diversos intelectuais, como o americano Lawrence Lessig, criador do Creative Commons, plataforma que visa expandir a quantidade de trabalhos científicos e obras de arte disponíveis para cópia e compartilhamento.

O problema se agrava quando O Dilema das Redes se concentra nos danos causados pelas redes sociais às democracias ocidentais através da polarização e da propagação de fake news. Esse trecho, bastante curto para a importância do tema, é propositalmente desorganizado e escancara algumas limitações do documentário: imagens de protestos em Hong-Kong, França, e Myanmar são intercaladas com falas sobre caos social e personalização das timelines. Não é explicado o mecanismo dessas intervenções, nem por que cada uma dessas imagens seria reflexo delas, deixando um enorme vácuo no assunto e dando a entender que o algoritmo do Facebook seria, pura e simplesmente, responsável por esses eventos.

Os argumentos que justificam a propagação de fake news nas redes são rasos. Seria o suposto contraste entre uma realidade desinteressante e fake news simplistas que atrairiam as pessoas, evocando o potencial de engajamento gerado pela desinformação. Em busca de criticar a polarização, uma das partes fictícias do documentário mostra um jovem que se radicaliza em um partido de “extremo centro” com ajuda das fake news. O trecho termina em uma análise sobre a ameaça que essa polarização representa à democracia, ilustrada pelas eleições nos Estados Unidos e Brasil. A rapidez e falta de profundidade dão a entender que as redes sociais são os grandes (talvez únicos) motores das eleições de Trump e Bolsonaro. Mas teriam eles saído diretamente dos códigos para materializar os inimigos da verdade e do bom senso?

Ao tratar a polarização de forma leviana, quem se restringe a esse documentário pode imaginar que as fake news são a grande marca da passagem de um consenso baseado no real para uma distopia tecnológica. No entanto, para os brasileiros, não seria um grande desafio decidir o que contribuiu mais para a eleição de Bolsonaro: a invenção de fake news pitorescas, como a “mamadeira de piroca”, ou os quatro anos entre o início da operação Lava-Jato e a eleição de 2018 de um falso discurso anticorrupção, criminalizador da política e dos governos Lula e Dilma, proferido todos os dias em plena grande mídia, teoricamente fonte confiável de informação.

Também nos Estados Unidos, que é considerado no mundo liberal um exemplo de democracia e de liberdade de imprensa, a tecnologia não foi bem recebida pela imprensa tradicional quando se tratou de revelar as verdadeiras notícias. A organização WikiLeaks, criada por Julian Assange com a missão de publicar informações confidenciais e documentos de fontes anônimas de interesse público, denunciou diversos escândalos jamais cobertos pela mídia americana – mesmo depois de virem à tona. Entre guerras, intervenções externas e questões de política nacional, o WikiLeaks mostrou, por exemplo, o alinhamento das elites americanas contra a candidatura de Bernie Sanders na eleição de 2016, que acabou por eleger Donald Trump. Ao conquistar relevância no cenário americano, Assange foi obrigado a fugir do país e hoje está preso em péssimas condições na Inglaterra. Enquanto isso, as informações que contam os bastidores dessa democracia circulam, em grande medida, apenas em mídias alternativas.

Não se trata, contudo, de ignorar o fenômeno das fake news, nem de fingir que há perfeita continuidade em relação ao que era feito antes. Há, certamente, um deslocamento entre um ataque focado na “defesa de interesses”, que distorce e recria a realidade para que ela se encaixe em uma determinada visão política, e uma afronta a tudo que poderia ser estabelecido como comum: a ciência, e os avanços sociais para minorias, por exemplo. A gravidade do fenômeno é de fato distópica, pois passa a ser cada vez mais difícil pensar uma unidade dentro desta nova sociedade.

Trata-se, então, de reconhecer o salto em um processo de desinformação que já vivíamos, com mais ou menos intensidade, dependendo do local do mundo e momento histórico. Mesmo não sendo a temática principal do documentário, seria possível entender as fake news também do ponto de vista de seu financiamento e da desconfiança geral em relação às mídias tradicionais, enfraquecidas economicamente pela internet. A crise da democracia poderia ser ampliada se tratada a partir da análise da história recente, que culmina, de um lado, na concentração de renda e estagnação de salários e, de outro, na época com maior concentração de monopólios da história, com protagonismo das próprias empresas de tecnologia.

O livro The Myth of Capitalism: Monopolies and the Depth of Competition, de Jonathan Tepper, documenta a história dos monopólios – ou, de forma geral, da concentração industrial – que se estabeleceram a partir dos anos 80, com passagem importante pelas empresas de tecnologia. Além de contextualizar o problema em seu momento histórico, seria importante desmistificar que esta é uma via de máxima inovação. A revista liberal The Economist manifesta há décadas preocupação com a falta de inovação na economia americana. O fundador do Paypal, Peter Thiel, afirmou em 2013 que a inovação dos Estados Unidos estaria “entre uma situação desesperadora e a morte”. Em seu livro, Tepper explica como a era dos monopólios é parte da explicação desse fenômeno. Além disso, a pesquisa feita com fundos privados em detrimento dos fundos públicos se mostra mais produtiva do ponto de vista do lucro, mas menos produtiva do ponto de vista da inovação.

Outro assunto que fica de fora desse dilema é a exploração geopolítica das GAFA, que tem alto potencial para uso de espionagem. Ironicamente, o único líder político a ser vinculado a essa temática é o presidente russo Vladmir Putin, em um trecho que evoca a participação de hackers russos na propagação de fake news por governos autoritários. Além de curto e pouco ligado ao que é falado no documentário, a cena fica desconexa em um roteiro que evita a relação entre tecnologia e Estado nos Estados Unidos, mesmo que todas as empresas em questão sejam norte-americanas e que haja provas do potencial geopolítico do domínio deste mercado. O caso Snowden, por exemplo, levantou a questão quando demonstrou que a NSA (agência de segurança nacional americana) possuía um amplo sistema de escutas telefônicas e de vigilância pela internet, visando espionar governos em todo o mundo.

É sintomático o fato de restar tão pouco tempo para a última parte, em que o documentário pretende desenvolver as soluções para o caos apresentado. Sem um horizonte possivelmente mais utópico, mas mais instigante, de “softwares livres”, ou mesmo a esperança de um ambiente menos feudal para as redes – onde a terra é dividida entre gigantes – restam algumas palavras sobre regulamentação, mudança no bussiness model e importantes atitudes individuais, como desativar as notificações dos aplicativos. Mas seriam essas regulamentações possíveis de serem executadas em um ambiente onde há tanto poder concentrado nessas corporações? A que ponto a internet pode ser de fato democrática nessa mesma configuração?

Em suma, O Dilema das Redes é um documentário relevante nesta fase do desenvolvimento tecnológico; uma primeira reflexão sobre o tema. Ele chama a atenção para os riscos dos algoritmos geridos pelas GAFA e o faz explicando que a forma exploração da tecnologia é uma escolha política dentro de um sistema capitalista, mesmo que evitando confrontar diretamente esse fato. No entanto, falha ao não fazer uma análise mais profunda do porquê chegamos até aqui – contar a história da resistência a esse caminho poderia fornecer perspectivas mais iluminadoras. Trata, também, de maneira simplista a polarização e a democracia e encobre temas importantes. Será, por essa via, difícil produzir o engajamento político necessário para essa luta tão importante por uma internet feita para a informação e liberdade.

E se todo dia fosse como feriado?

Esse desconforto me acompanha desde criança. Esteve lá por toda a minha vida, por isso demorei a perceber que não era parte das leis da natureza.

Esse desconforto me acompanha desde criança. Esteve lá por toda a minha vida, por isso demorei a perceber que não era parte das leis da natureza.

Quem me levou à escola, preparou minhas refeições e passou as tardes comigo não foi minha mãe. Minha mãe, ela saía de manhã cedo para o trabalho e voltava exausta de noite. Sem tempo, sem ânimo para diálogos. Recentemente ela se aposentou. E eu iniciei meu caminho no mercado de trabalho. Ela sente que perdeu propósito. E eu?

Trabalhar como doutoranda na universidade, pesquisando matemática. Já havia aí a dúvida se algo era de fato produzido – sem entrar no mérito se o produto tinha valor ou não. Pelo menos eu estava ali na universidade. De repente, pandemia! Horas de trabalho não são mais definidas como aquelas que se passa na empresa.

Um inspetor passa aqui em casa: “Por favor senhora, pode me mostrar pelo que estamos lhe remunerando?’”

Mostro-lhe minhas anotações e rabiscos incompreensíveis. Ele me diz: “Sr.Ramanujan na Índia entrega um trabalho muito superior e ganha menos. Você está a dever”.

Penso: “Talvez eu deva recompensar minha improdutividade, minha lentidão e distração com algumas horas a menos de sono. Talvez meus amigos não precisem de mim, nem minha família. Eles concordam e compreendem. Meus hobbies… o que é que se ganha com eles? Ou talvez se me apressar… Não sou preguiçosa, nunca fui. Sou dedicada e amo o que faço”.

Essa é minha síndrome. Essa era a síndrome de minha mãe. O trabalho como definição de caráter, ao passo que “trabalho” perde sua definição.

O trabalho como definição de caráter, ao passo que “trabalho” perde sua definição.

“Trabalho é aquilo que não se quer fazer, mas precisa ser feito”. Em troca, recebe-se um salário. Talvez fosse assim na reconstrução do Pós-Guerra, na era da Primeira Revolução Industrial. O quanto se remunera depende da “oferta e procura” e das forças que gerem a economia. Comparado à situação anterior, finalmente ter bens e poder aquisitivo era sinônimo de prosperidade.

Máquinas começaram a automatizar os processos e a população mundial explodiu. Inventou-se a venda de serviços, sapateiros, médicos, comerciantes. “Trabalho é sua contribuição para a sociedade”. A clientela é agora mais pessoal e é ela quem paga seu salário. Surge espaço para a propaganda, moda e ideais se disseminam. Finalmente a emancipação feminina e a revolução digital, há mais pessoas no mercado de trabalho e mais vontade de expor sua voz.

Hoje em dia se é jogador de futebol, youtuber, matemático… “Trabalho é aquilo que nos permite desenvolver nossas aptidões e paixões”. Um sentido para existência! Como? Será que posso viver cada dia cuidando de quem amo e do que amo e isso me faz responsável? Não, não tão longe. Isso lhe faz inconsequente.

Ainda existe a questão da remuneração. Apenas algumas paixões são reconhecidas pela sociedade. Sociedade é esse tipo de ordem que aparece quando se junta pessoas. O cuidado de uma mãe tem valor na sociedade que se constrói entre poucos, dentro de uma casa. Uma demonstração de um teorema tem valor na sociedade de matemáticos. Porém para ser remunerado, é preciso ter-se o reconhecimento de quem?

Confiar em nosso próprio julgamento do que é importante requer muita coragem. Mesmo quando todos parecemos concordar que cuidar de nossas famílias, de nossa saúde é primordial, algo no sistema parece nos dizer o contrário. Esse desconforto que sempre esteve aí não faz parte das leis da natureza, é uma patologia do sistema que não se atualizou! Mudamos do trabalho em fábricas para a prestação de serviços e daí, para serviços cada vez mais abstratos. Será que ainda precisamos dar nomes a todas as profissões a serem reconhecidas?

A Honra Perdida de Katharina Blum: impressões de leitura

Três impressões bem diferentes do primeiro livro do nosso clube. Podem ler sem medo de “spoiler”.

o que você tem a dizer sobre a honra perdida de katharina blum?

Leitura de Vanessa Ribeiro

Confesso que, quando vi que se tratava de um livro alemão e descobri que era um enredo que começava com assassinato, achei que leria um romance policial. No entanto, o enredo não teve o final “fechadinho” que se espera dos krimis alemães e, ainda por cima, trata uma outra questão, que é mais universal e um tanto atemporal: a difamação de uma mulher irrepreensível por causa da suspeita de seu envolvimento com um homem criminoso. Ela, inclusive, é xingada de “puta comunista” – tem como ser mais 2020 que isso? A diferença é que a história se passa na Berlim ocidental dos anos 70, ou seja, a aversão ao comunismo fazia algum sentido.  

Bem isso não importa… o importante é que Katharina Blum era, como o próprio autor descreve na entrevista que consta no epílogo do livro, a doméstica perfeita: organizada, simpática, se impunha quando necessário. Todos eram apaixonados ou se apaixonam por Katharina (inclusive o próprio Heinrich Böll). Além disso, Katharina representa a realização da promessa capitalista de que trabalhando duro se vence na vida: tinha origem humilde, vários empregos, um carro próprio e um apartamento financiado. O sucesso econômico lhe deu, inclusive, liberdade para escolher como e com quem se relacionar. Mas pode uma mulher se tornar um self-made-man sem criar desconforto ou levantar suspeitas? Será que haveria história – ou honra perdida – se Katharina fosse um homem? O sucesso da nossa jovem protagonista é um “tapa na cara da sociedade”, mas foi a reputação dela que pagou por isso, sendo atacada com ainda mais violência… E a cada violência vão se destruindo honras, vidas e se construindo o enredo da obra. 

Leitura de Luiz Moreira

Heinrich Böll escreveu A Honra Perdida de Katharina Blum e, quase meio século depois, quando um Pedro indicou o livro num story, me lembrei de uma discussão sobre “o que é honra?” com um outro Pedro. Eu acho tão confuso! Digitei no Google mais uma vez “honra” e continuei perdido. Será que é difícil pra eu entender esse conceito porque, diferente da Katharina, nunca fui privado de nada remotamente parecido? Foi com isso na cabeça que abri o livro e comecei a ler.

As duas primeiras folhas me chamaram a atenção, a história já ganha seu “final”: quatro dias depois do Weiberfastnacht, uma jovem confessa ao superintendente de polícia Walter Moeding que assassinou a tiros o jornalista Werner Tötges. Em mais algumas páginas, o final ganha a companhia de um começo: Katharina, a jovem, conheceu Götten, um procurado pela polícia, numa festa na casa de amigos. Eles passaram a noite na casa dela e ela o ajudou a fugir. E o JORNAL cobriu toda essa história de uma maneira sensacionalista.

O desprendimento do autor com o suspense me prendeu logo de cara. Senti que a história não era sobre o que aconteceu, mas sobre como o que aconteceu é contado. Só com o começo e o fim da história, me senti convidado a completá-la (assim como o JORNAL o foi?). E o livro, contando a história, mostra como aceitar esse convite é perigoso.

A história é escrita de uma maneira documental. Como num bom documentário, o narrador disseca a história sempre acrescentando novos fatos e novos níveis aos fatos. E, como num excelente documentário, é explicitado que é muito difícil ter uma imagem geral dos acontecimentos. Ele fala que a única intenção do texto é organizar os relatos e até se desculpa:

“[…] se em alguma passagem dessa narrativa houver fluidez, … pede-se benevolência[…]”.

Essa fluidez é o que o jornal tentou colocar nos fatos para vender a manchete e também o que eu tentei colocar no que eu entendia da narrativa quando ganhei de presente o fim e o começo. Pra deixar claro o perigo dessa busca por uma história fluida, o texto, com toda a sua estrutura factual, se apresenta como “mais uma versão”. Algumas informações nunca são explicitadas no livro. Várias vezes fiquei perdido sem saber de qual fonte veio determinado relato. Até a voz do texto parece ter sido meticulosamente selecionada com essa intenção. Ele é escrito na primeira pessoa do plural, e eu mesmo nunca consegui decidir se o narrador é ou não um personagem da história.

Nas várias buscas por uma história fluida, nunca é permitido à Katharina fluir sua versão. E essa tensão é levada até a última página do livro. Katharina não flui; perdida, então, sua honra. Assim finalmente consegui sair da minha zona de conforto e entender um pouco mais a definição de honra que vi no Google: “princípio que leva alguém a ter uma conduta proba, virtuosa, corajosa, e que lhe permite gozar de bom conceito junto à sociedade”.

Leitura de Pedro Franklin

Em uma quinta-feira de manhã, a polícia bate à porta de Katharina Blum à procura de um suposto ladrão chamado Ludwig. Lá ele não estava e a senhorita Blum é conduzida à delegacia para que seu testemunho fosse registrado. Três dias após esse depoimento, ela se entrega à polícia horas depois de assassinar Werner Tötges. É assim que começa a narrativa de A honra perdida de Katharina Blum: pelo início e fim da história. A partir daí, o livro reconstituirá, através dos depoimentos de várias pessoas, os acontecimentos que se sucederam entre estes dois pontos impessoais: condução à delegacia e assassinato.

O livro possui um subtítulo: “de como surge a violência e para onde ela pode levar”. Na narrativa, Katharina começa a ser agredida psicologicamente pelos interrogadores durante seu primeiro depoimento. À medida que o interrogatório transcorre, fica evidente o desconforto que a protagonista gera nos policiais pelo simples fato de ser uma mulher inteligente, independente, dona de um apartamento e de um carro. E justamente por possuir essas características que Katharina é ainda mais violentada. A violência ganha proporções maiores quando O JORNAL passa a publicar e distorcer detalhes da sua vida privada e das pessoas que possuem ligação com ela. A humilhação, antes reservada apenas às quatro paredes da delegacia, agora ganha as ruas e Katharina é condenada publicamente e, inclusive, começa a receber cartas e telefonemas intimidadores.

A violência praticada pelos policiais e pelo JORNAL possui um ponto em comum: nos dois casos, as agressões se deram a partir da escolha de determinadas palavras: “Ele te comeu?”, por exemplo, é a pergunta que um delegado dirige a Katharina durante um dos interrogatórios. Do outro lado, O JORNAL alterou propositadamente os depoimentos de quase todas as pessoas que ele entrevistou (“inteligente e fria” se tornou, por exemplo, “gélida e calculista”), criando, assim, uma outra narrativa para o público. Ainda nessa direção, é preciso ressaltar a qualidade do texto de A honra perdida de Katharina Blum. Escrito por Heinrich Böll em 1974, o livro possui uma redação que caminha em consonância com a história retratada. Seu texto tem o formato de uma reportagem jornalística e o narrador, em muitos momentos, parece ser uma das testemunhas dos crimes. Caso ele seja, algumas perguntas podem surgir a partir dessa suposição: a pessoa que está nos contando a história está, de fato, nos contando o que realmente aconteceu? Devemos confiar nessa testemunha que não conhecemos? Mesmo que não tenhamos informações suficientes para responder a essas perguntas, elas servem para nos lembrar de que toda narrativa é contada a partir de um olhar específico e aquilo que o outro enxerga não é necessariamente aquilo que eu enxergo.

Para onde a violência leva é pergunta que não tem resposta. Pode ser que leve a mais violência. Depois de três dias de intensos ataques, Katharina mata Werner. A violência psicológica se transformou, aqui, na violência da bala. Por outro lado, o narrador-testemunha não nos informa o desfecho das outras personagens violentadas na história, como os amigos e familiares da senhorita Blum. Mas essa ausência dos conhecimentos dos fatos futuros também é perigosa. É difícil precisar qual será a gota d’água que fará o balde transbordar. Por outro lado, a ausência de explicação sobre o que aconteceu com determinados personagens permite que a violência da história continue pairando no ar. Coisa típica do terrorismo: talvez o medo que se instale nas pessoas após um ato terrorista tenha mais poder de destruição do que o ato terrorista em si.

Uma história em cem mil

Argentina Botelho foi mulher, esposa, mãe, avó, bisavó e amiga. Ao longo de seus oitenta e nove anos, lutou e venceu muitas batalhas…

Minha avó

Argentina Botelho foi mulher, esposa, mãe, avó, bisavó e amiga. Ao longo de seus oitenta e nove anos, lutou e venceu muitas batalhas. Cresceu em um colégio interno – onde viveu por dezoito anos – e venceu o câncer duas vezes, quando muito se estigmatizava e pouco se sabia a respeito dessa doença. Também venceu a árdua tarefa de criar e educar três filhos com dignidade e zelo. Deixou como legado uma família fundada sobre as sólidas bases da retidão de caráter e da justiça. Deixou três filhos, quatro netos e um bisneto.

Durante toda a sua trajetória, Argentina empregou essa força descomunal que habitava seu coração nas tarefas de casa e nos cuidados de quem amava. Começava os afazeres domésticos invariavelmente às cinco da manhã e não se descuidou um dia sequer do seu lar. Como minha avó, cuidou de mim desde os primeiros dias. E, durante parte da minha infância, envolveu-me em sua presteza e em seu carinho. Em muitas noites frias, levantou-se para me dar chá com leite em pó ou me cobrir. Cozinhou bolos e broas com minha irmã, trocou confidências, chorou com sua partida para a Alemanha e riu muitas e muitas vezes ao ver fotos do bisneto.

O ser humano Argentina Botelho foi pacífico e gentil. Evitou ao máximo incomodar as pessoas e fez disso o seu lema. Gostava de fazer pequenos agrados. Viveu a sua vida simples sem importunar ninguém.

A mulher Argentina Botelho foi uma mulher simples. Gostava de pintar o cabelo de preto, usar vestidos floridos e calçar sapatinhos pretos. Não foi de luxos e gostava de assistir TV sentada em uma cadeira de plástico, mesmo quando tinha um sofá confortável à sua disposição. “Pra mim assim já tá bom” era o que sempre dizia. Seu último pedido foi um creme e um pente.

Foi nos detalhes dos seus gestos, nas singelas demonstrações de carinho, na sua prontidão que Argentina Botelho revelou o tamanho do seu coração. E foi assim que ela conquistou espaço dentro dos corações daqueles que a cercavam. E é dentro desses corações onde ela viverá para sempre.

A minha avó faleceu no dia 14 de agosto de 2020 devido ao COVID-19. Ela se foi após muita luta, como fez em toda a sua vida, foi-se após trinta dias no CTI.

Há quem diga que a minha avó é só mais uma em 100 mil e que 100 mil é um número bem pequenininho perto dos 200 milhões de brasileiros. Para mim e para a minha família esse UM tem um peso muito maior que 200 milhões. E para nós, antes de ser qualquer número, Argentina Botelho foi mulher, mãe, avó, bisavó e amiga.

Descanse em paz, vó.

Te amo.

O Alzheimer e o luto

Eu não conheci meus avôs, mas as minhas avós foram muito presentes na minha vida. A minha avó por parte de pai se chamava Maria e tinha uma mãe índia que se chamava Letícia (por que uma índia tem um nome latino eu também não sei). A bisa Letícia, segundo a minha avó, tinha um cabelo preto liso enorme, “parecia mais uma capa preta”. A vó Maria gostava muito de falar, ela conversava com a TV quando assistia às novelas mexicanas do SBT: “ele não gosta de você, sua bandida! Ele gosta é da outra”. Ela não fazia graça, mas era muito engraçada; dava pra gente chá-mate bem docinho, mesmo sendo diabética, e cozinhava o melhor feijão que eu já comi na vida. Nas viagens de férias na praia, ela ficava na beirada do mar e molhava as costas com o nosso baldinho de areia. “Vó, por que a senhora não vai lá pro fundo?” “E por acaso você tem um guindaste pra me tirar de lá?” E a gente ria, ria, e molhava as costas dela com o baldinho.

Um pouco antes de vovó morrer, ela passou um tempo no hospital. Fui fazer uma visita sozinha, já que não podia haver muitas pessoas ali. Fui pensando em palavras de conforto, novidades etc., mas foi ela quem falou o tempo todo. Mesmo com uma sonda na garganta e com dor para falar, ela me contou que a vizinha estava vendendo umas calcinhas ótimas, com um preço muito bom. Também me mostrou com orgulho a fralda geriátrica de elástico que minha mãe tinha levado pra ela, disse que gostava muito da minha mãe e depois explicou o porquê. Eu saí de lá rindo, “o corpo doente, mas a cabeça está ótima…”

Quando vovó morreu, eu tentei ir ao trabalho para não pensar muito nisso e me sentir melhor. Mas lá no serviço as pessoas me mandaram ir embora, porque o luto, ainda mais de uma avó, precisa ser respeitado. No cemitério eu despedi da minha avó, ela havia partido para sempre e levado com ela o feijão mais maravilhoso que eu já comi. 

Já a minha avó por parte de mãe se chamava Nilda e era filha de italianos. O pai dela era serralheiro e a mãe havia falecido quando ela era ainda muito criança. Como nesses filmes antigos, ela frequentou um colégio francês só para meninas e foi criada pela irmã do pai, que era má com ela e com os outros irmãos. 

A gente morava na casa da vó Nilda, o que fazia a convivência mais intensa e mais cheia de gritos e brigas, nada grave, só estilo italiano de intimidade mesmo. Vovó era brava e gostava de manter a casa toda arrumada já de manhã. Ela tinha o costume de tirar os pratos antes mesmo de a gente terminar de comer, tudo para poder arrumar a cozinha o mais rápido possível. 

Nas férias na praia, a vó Nilda era a que dormia na cama de cima do beliche das avós (a vó Maria dormia embaixo), era a que ia nadar no fundo do mar – onde a gente não podia ir porque não dava pé – e ficava boiando. Também era a que jogava buraco e tomava cerveja com os adultos enquanto a avó Maria tomava refrigerante diet e via novela com as crianças. A vó Nilda não parecia tanto uma avó, acho que por essa independência e também por causa do nosso convívio cotidiano, que evolui as relações. Ela tratava a mim e meu irmão com menos cerimônia e mais gritos, a educação à italiana que ela conhecia. A gente obedecia, mas às vezes respondia aos xingos com risadas, o que dava alguma leveza à obrigação árdua que ela tinha de nos manter sob controle. Até que vovó adoeceu. 

A vó Nilda começou a ficar meio caduca: não entendia direito o que a gente perguntava, olhava pra gente com olhar perdido. Começou a contar umas histórias doidas, expulsar o Stéfano lá de casa – o meu primo que morava em frente e fazia companhia pra vovó a pedido da mamãe – e pedir pra que a gente a levasse para casa: “liga pro meu pai que ele vem me buscar”, ela dizia. E a casa que era tão dela – arrumada de manhã, com os pratos da refeição não terminada já limpos na cozinha – não fazia mais sentido: “meu endereço é rua Olegário Maciel”, que era a sua casa da infância, da tia má e da oficina do pai. “Me leva pra casa, estão me prendendo aqui”. E agora éramos eu e meu irmão que tínhamos a obrigação árdua de mantê-la sob controle: “calma, vó, não precisa gritar, a senhora está em casa!” 

Isso sem contar as fugas! Alguns vizinhos já haviam batido lá em casa avisando que viram minha avó descendo a rua correndo – sim, correndo! Tivemos que começar a esconder as chaves da casa e verificar sempre se o portão estava trancado. Também tivemos que colocar grades nas janelas, porque minha tia que mora em frente viu ela tentando fugir – sim, tentando pular a janela. Eu encarei a notícia rindo: “a cabeça doente, mas o corpo está ótimo…”

Além de trancar a minha vó na sua própria casa e tentar convencê-la sei lá como de que ela estava em casa, meu irmão, uma vez, deu voltas de carro com ela no quarteirão: “uma tática boa”, diziam. Quando eles voltaram, porém, ela foi muito mais lúcida do que a gente imaginava: “você só deu uma volta comigo e viemos para o mesmo lugar!” E os xingos e os gritos se misturaram com os soquinhos que ela costumava dar nos nossos braços: “me leva pra casa, liga pros meus pais, eles vêm me buscar. Eu moro na Olegário Maciel”.

Todos os dias era o mesmo dilema: “vó, eu juro, a senhora está em casa!” Aí, além dos gritos para que os vizinhos ou as pessoas que passavam na rua a socorressem e as tentativas de fuga, ela passou a ligar para o celular da minha mãe. Sim, ela não sabia onde ela estava, mas sabia de cor o celular da minha mãe. Então, além das grades das janelas, de esconder as chaves, passamos também a vigiar o telefone fixo. Minha mãe dirigia uma van escolar e não podia atender ligações ao volante. A gente sabia disso e raramente ligava para ela do telefone de casa, só quando era uma emergência. Daí já se pode imaginar o susto que minha mãe levou quando recebeu uma ligação de casa, mas o misto de emoções quando ela atendeu e era a minha avó dizendo que estava presa e pedindo que a levasse embora para a Olegário Maciel. Então a minha mãe começou a adoecer junto com ela…

Numa dessas crises diárias de “me leva daqui, aqui não é minha casa”, eu respirei fundo e mostrei pra ela uma foto: “olha, vó, a senhora está em casa! Esta foto é sua, na sua cristaleira, esta cristaleira é sua, não é? Olha suas taças, a foto do Lucianinho…” Ela olhou bem a foto, olhou a cristaleira, e disse: “olha, é mesmo, estou em casa! Me desculpa, viu, minha filha?” E sentou no sofá e voltou a ver TV. Claro que isso durou algum tempo e o “me leva pra casa” aconteceu de novo. Mas, neste dia específico, eu me senti bem mal: eu tive a impressão de que a minha vó teve um lapso de lucidez e se sentiu mal por estar sendo inconveniente. Me senti mal por ela, imaginando que deve ser a pior das sensações se perceber louca. A gente lida com o descontrole de alguém diariamente e se esquece que a maior dor deve ser justamente deste outro que não consegue se controlar. 

Este dia em especial ficou muito na minha cabeça, até que, refletindo sobre a pessoa da minha vó e quem ela foi a vida inteira antes de adoecer, fui eu que tive um “lapso de lucidez”: aquela não era a minha vó, principalmente naquele momento que eu acreditava ser um “lapso de lucidez”. A minha vó Nilda nunca pediria desculpa e nunca se deixaria convencer assim tão fácil. A minha vó Nilda é a que tira o prato de comida antes de a gente terminar, é a gente que pede desculpa por demorar a comer. E no momento que eu pensei ter a minha vó de volta foi justamente o momento em que eu a perdi. 

Perceber que aquela pessoa que está ali não é mais a sua avó é a parte mais doída pra quem convive com alguém que tem Alzheimer. É tão doído que a gente ignora esse fato e só reconhece depois que a pessoa morre. Não lembrar parece ser um grande antídoto pra dor, apesar de ser justamente o que deixa o Alzheimer tão difícil. Isso ficou bem claro quando meu tio morreu, o filho preferido da vó Nilda. Ele e a família moravam em frente, então, no dia da morte dele, as pessoas vinham ver minha tia e meus primos e aproveitavam para ver minha mãe e minha avó. Meu irmão estava nos Estados Unidos, minha mãe estava muito abalada e meu outro tio morava em Ipatinga e veio de carro pra BH em menos de 3 horas de viagem. Cabia a mim atender a porta, dar informações de velório e checar minha mãe e minha avó. Minha mãe chorava muito e tentava conversar com as visitas, que eram os vizinhos, parentes, amigos da família. Minha avó só ouvia o que as pessoas diziam e olhava para todo mundo com um olhar perdido. Teve uma hora em que ela disse a uma das pessoas que estava ali: “não consigo aceitar o que aconteceu com meu irmão”. No mesmo dia eu contei aquilo pra minha mãe e foi um daqueles instantes que a gente ri muito, mesmo que o momento seja só triste, porque já estamos muito à flor da pele. A minha tia-prima também riu e disse que Deus sabe o que faz, por poupar minha vó da pior dor de todas, que é perder o filho, e justamente o preferido. 

No velório, durante o cortejo com o corpo do meu tio até o jazigo onde ele seria enterrado, eu dei o braço para minha vó e a levei comigo. Ao longo de toda a caminhada ela me perguntou aonde estávamos indo. Ela viu o enterro, viu a Bia (a primogênita do meu tio e, por sucessão, a neta preferida) chorando e não teve nenhuma reação, a não ser o olhar perdido que já era tão comum. Enterrado o corpo, dei-lhe novamente o braço e ela só me perguntou “é aqui que o carro do seu pai está estacionado?” Eu tinha perdido um tio e uma avó. 

A vó Nilda teve um infarto e ficou dias no hospital, inclusive o próprio aniversário. Os netos, minha mãe e minha tia se revezavam para dormir com ela. Ela não tinha qualquer reação, estava entubada, só escutávamos sua respiração. Ela se foi no dia em que o Stéfano era o acompanhante – sim, o Stéfano que ela mandava embora quando ele ia lhe fazer companhia. 

Nós choramos a morte da vovó, mas qual? Eu tive duas vós Nilda: a primeira que xingava e que fazia questão de deixar a casa o tempo todo arrumada; e a segunda, que tinha o olhar perdido e mal sabia quem eu era. Essa segunda D. Nilda me causou dor e adoeceu minha mãe por nos lembrar diariamente que a minha vó de verdade já não estava ali e por não ter deixado nem menos um espaço pra dizer um adeus genuíno, com lágrimas e um luto decente; mas o cuidado que tínhamos com ela, além da convivência, nos obrigou a amá-la como se ela fosse nossa. Assim como eu aprendi a amar e obedecer a avó brava – e depois descobrir que ela era “brava” principalmente no sentido italiano da palavra – eu também aprendi a amar aquela outra pessoa no corpo da minha vó, uma criança que não conhecia ninguém ali e só queria ir pra casa. Nem vimos quando a primeira D. Nilda realmente se foi, mas choramos ao ver a segunda ir. A verdade é que só quando enterramos o corpo que nos permitimos chorar o luto que a gente vivia diariamente.

Se hoje eu já não me lembro de teu rosto, tua risada nunca me deu trégua

Assim como as linhas de nossas mãos ou como nosso DNA, a maneira como rimos e sorrimos também faz parte de nossa identidade.

Queria ver minha mãe dar sua risada.

Naná foi uma das mulheres que eu escolhi para ser minha avó. Eu a conheci quando eu tinha 3 anos e desde o primeiro encontro ela sempre foi, para mim, Vó Naná. Quando criança, eu a visitava para receber balas de morango que ela guardava em um pote gigante que ficava em cima de sua geladeira vermelha. Adolescente, eu a visitava para lhe contar sobre como eu estava me saindo na escola e para ouvi-la falar sobre os filhos, o marido, o clima e as fofocas da vizinhança. Vó Naná sempre foi uma pessoa sorridente e era muito engraçado vê-la se explodir em gargalhadas. Sua risada era alta e espaçada como tiros. Ao terminar de rir com a boca, minha avó continuava a rir com as mãos: prendia a ponta da língua entre os dentes e começava a me dar leves tapas na cabeça e nos ombros. Era assim o seu riso, uma festa.

Vó Naná sorria com o corpo todo, mas também existem aqueles que sorriem apenas com os olhos. Tem gente que ri alto, tem gente que sorri em silêncio. Tem sorriso que faz as maçãs do rosto crescerem e se avermelharem. Tem risada curta, demorada e risada que contagia. Tem gente que sorri com os lábios fechados e tem gente que sorri com as sobrancelhas arqueadas. Há aqueles que no meio de um choro desatam a rir e há aqueles que durante uma risada começam a chorar. Assim como as linhas de nossas mãos ou como nosso DNA, a maneira como rimos e sorrimos faz parte de nossa identidade.

Quando o álbum branco de Caetano Veloso foi lançado em agosto de 1969, o cantor já estava exilado em Londres. Certamente uma das obras mais bonitas de Caetano, o álbum conta com Marinheiro Só, Carolina, Os Argonautas e Irene. Com letra simples, de poucas linhas e versos extremamente sonoros, Irene é uma grande canção: uma pessoa que está em um lugar que não é seu quer voltar para casa e ver — não apenas ouvir — uma mulher chamada Irene dar sua risada. Não é preciso saber quem é a moça dos versos para afirmar que a música é muito bonita:

Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada

Irene ri, Irene ri, Irene
Irene ri, Irene ri, Irene
Irene

A poesia de Irene fica ainda mais bonita ao se descobrir a história que está por trás da canção. Em 27 de dezembro de 1968, 14 dias após o AI-5 entrar em vigor, Caetano Veloso foi preso por agentes da Polícia Federal em São Paulo. Acusado de ter desrespeitado a bandeira e o hino nacional, foi transferido para o quartel do Exército de Marechal Deodoro, no Rio, e teve a cabeça raspada. Só sairia da prisão em fevereiro de 1969 para, meses depois, ser convidado a se retirar do país e partir para o exílio em Londres. Foi durante o encarceramento no Rio de Janeiro que Caetano Veloso escreveu Irene.

Irene é a irmã caçula de Caetano. Em seu livro Verdade Tropical, em um trecho em que fala sobre os dias na prisão, Caetano descreve a irmã e conta como surgiu a música:

“A figura de minha irmã Irene aparecia com frequência em minha mente como um antídoto contra essas sombras. Irene tinha catorze anos então e estava se tornando tão bonita […]. Mais adorável ainda do que sua beleza era sua alegria, sempre muito carnal e terrena, a toda hora explodindo em gargalhadas sinceras e espontâneas. Mesmo sem violão, inventei uma cantiga evocando-a, que passei a repetir como uma regra.”

E é por isso que a canção agora fica ainda mais bonita e significativa: um sujeito preso evoca o sorriso da irmã como remédio para aliviar o sofrimento de se estar em uma prisão controlada por um regime militar. Se, por um lado, na prisão, temos o enclausuramento, a solidão e a opressão, por outro lado, na risada aberta de Irene, temos o acolhimento e a vontade de estar livre: a risada alegre se contrapondo à tristeza da prisão.

Vovó Naná morreu há 8 anos. Eu ainda consigo me lembrar, com um certo esforço, de seu cabelo curto, de sua pele áspera e da maneira como gotículas de água saíam de sua boca em momentos de empolgação. Mas o tempo é cruel e a névoa do esquecimento já começa a encobrir, em minha memória, a imagem do rosto de minha avó. Felizmente o eco de sua risada não morrerá tão cedo e, na recordação de seu sorriso espontâneo e alegre, Vó Naná sempre poderá renascer para mim.

Cientificismo, Negacionismo e Democracia: Por que é preciso educar

Foto por Andrew McMurtrie em Pexels.com

É muito comum para todos que cursaram o ensino fundamental e médio se lembrar de alguns pontos clássicos das aulas de história, como o Período Feudal, o termo “Iluminismo”, a Segunda Guerra Mundial, dentre outros. Confesso que, forçando muito a minha memória, parece que toda aula era sobre a Idade Média. Talvez por isso eu me lembre, de forma contundente, como que um paradigma cuja religião e o discurso divino eram centrais, após alguns movimentos sociais e filosóficos, começou a mudar com o Iluminismo.

Destaco que houve uma mudança drástica de como a sociedade via a vida e, exatamente por isso, esse processo não se deu da noite para o dia. Como exemplo de resistência podemos pensar na Igreja Católica, que detinha um poder muito grande sobre os reinos, as pessoas e a economia. Ela não queria perder tais influências. Daí, diante da Reforma Protestante, que está intimamente ligada a essas alterações, a Igreja Católica fez um movimento de contrarreforma, na tentativa de conservar os valores que predominavam no pensamento humano.

De toda forma, o século XIX trouxe a industrialização, enquanto o seguinte sedimentou um mundo totalmente mudado, em que o discurso científico buscava responder a todas as questões do universo. Até a alma passou a ter peso (abro parênteses para indicar a linda obra do cinema 21 gramas, cujo nome remete a essa ideia de termos uma alma e ser essa a sua medida em peso).

Advirto o leitor: o texto quer ser rápido, por isso faz saltos e simplificações históricas, necessárias para pôr a questão que o motivou.

Hoje, quase completo um quinto do século XXI, quando a tecnologia e a ciência dominam tanto as nossas vidas que chegamos a discutir se as máquinas poderão ter inteligência por si e escravizar o ser humano num futuro próximo, um movimento em sentido totalmente contrário parece ganhar forças. Aqueles que muitas das vezes são chamados de negacionistas – pessoas que negam conceitos científicos importantes para a sociedade, como os que fazem campanhas contra vacinação, dizem que o mundo é plano ou banalizam os impactos da pandemia causada pelo coronavírus – têm aumentado em número e questionado de forma intensa a ciência e o progresso do conhecimento. Isso preocupa e ainda traz mais problematização.

O primeiro ponto é que me parece insustentável voltarmos a um período cujo conhecimento era pautado pela autoridade religiosa. Não preciso fazer um experimento para saber a resposta das pessoas à seguinte questão: “Você entrou num grande objeto de metal. Ele foi chamado de avião. Você sabe que ele foi construído por um grande líder religioso, que professa a mesma fé que você e não possui qualquer conhecimento científico sobre aviões. Você aceita voar nessa caixa de metal?”

A questão aqui é simples: é improvável que os negacionistas, assim como aqueles que criam vídeos no YouTube contra alguns conhecimentos científicos, não utilizem da ciência esperando que ela funcione a partir dos seus avanços. Essa crença pode até ser inconsciente, mas, na grande maioria das vezes, há uma grande expectativa de que o conhecimento produzido pela ciência funcione e seja utilizado por essas pessoas. Ainda, essas mesmas pessoas provavelmente não aceitariam perder esse conhecimento para substituí-lo por outro que não responda às suas questões cotidianas, como a tecnologia que tem a possibilidade de melhorar suas vidas.

Em alguma medida, é possível afirmar que a grande maioria das pessoas consegue perceber que um leitor de cartas, daqueles que lê o passado e prevê o futuro, não tentará, com o seu conhecimento místico, criar um smartphone. O que nos deixa intrigado é que isso tem se rompido: as pessoas têm desafiado conhecimentos importantes, como as vacinas que garantem saúde contra diversos vírus, na tentativa de desacreditá-los a partir de teorias conspiratórias.

Por outro lado, também houve grandes avanços nos discursos sociais e na percepção da estrutura social. Hoje é fato que temos uma sociedade plural e que múltiplos projetos de vida possuem o direito de serem exercidos sem um julgamento moral rígido, desde que não violem os direitos dos outros. Conservadores até tentam negar direitos diversos, mas temos um pacto social simbolizado pela nossa Constituição e por tratados internacionais. Isso quer dizer que é um direito das pessoas pensar livremente e, inclusive, negar o discurso científico.

Aqui surge a grande questão do texto: em tempos como os atuais, em que discursos contra o conhecimento ganham força e são usados inclusive no âmbito de decisões políticas, qual caminho deveríamos seguir?

Confio na educação.

Compreender que a ciência é falha e deve ser compreendida a partir de seus limites e erro é um ponto importante. Retira dos cientistas qualquer ideia mítica e de um novo líder religioso. Rejeitamos o discurso de autoridade.

Por outro lado, reverberar que existam espaços diferentes entre o discurso da ciência e o religioso, por exemplo, é essencial. Um sujeito que tem uma fé muito grande no Criacionismo tem o direito de professar sua crença, mas, por outro lado, precisa compreender que existem espaços que não poderiam ser preenchidos com o discurso de algo que é tão individual e da liberdade de escolha de cada um.

Apenas como um exemplo rápido: instituições como o casamento não devem ser reguladas socialmente apenas a partir de uma moral com fundo religioso. Inclusive, por que recairíamos na questão de qual religião deveria ditar as ordens de um direito? Ou seria considerado inofensiva uma prática de pretensa cura por uma pessoa que se diz detentor de poderes divinos?

Ah, alguém poderia acertadamente dizer que, se o discurso científico predominar, estaremos também impondo um único tipo de valor. Diante dessa pessoa, eu tenho que concordar que sim. Por isso mencionei que a ciência precisa ser encarada sob seus limites, as pessoas precisam ter a opção de escolhê-la, e daí a necessidade de educação em suas mais variadas formas.

Para tentar trazer uma clareza de sentido: quando falo sobre o discurso científico, penso que a ciência não é neutra. Ela é formada por uma comunidade científica que faz as perguntas, as hipóteses, escolhe os métodos, dentro de outras variáveis que determinam o sentido da ciência. Entretanto, para mim, o discurso científico vai além, ele busca delimitar um pensamento que crê que a ciência é o melhor caminho para solucionar as questões da sociedade e, por isso e pelo seu conjunto de métodos, ele deve sempre sobressair perante outras formas de argumentar. A racionalidade é um mantra para os integrantes dessa comunidade. Talvez, a melhor expressão fosse até mesmo cientificismo.

Recuso a ideia de que a ciência deve ser a bússola das nossas regras sociais de forma imediata e simples. Acredito em lobbys e interesses que trazem ruídos para pesquisas. Acredito em saberes e sabedorias que vão além de métodos rígidos. Daí a grande importância de esferas democráticas de debates e esclarecimento, para que a liberdade de crença e de discurso possam sustentar avanços não totalitários.

Para além do que é considerado como interferência inadequada à ciência, o problema está na presunção de que um discurso é sempre superior ao outro. A democracia real custa caro. Demanda processos de debate e abertura sem fim. Isso implica que, quando uma autoridade – seja ela comprovada cientificamente ou fundada numa fé – se sobrepõe a todas as outras formas de discursos, estamos, de antemão, diante de um traço de autoritarismo.

O cientista não pode ser o novo papa, a ciência não pode ser uma nova religião. A racionalidade não pode ser argumento único para impor um modelo de vida a uma sociedade. Há uma necessidade da compreensão da importância de tudo isso a partir de valores que exigem ética de cada indivíduo. Ninguém foge do peso da responsabilidade para com o Outro. E a maturidade social é necessária para encarar os dilemas que se mostram.

O caminho certamente não é retroceder aos tempos de teorias e ideias que negam a pluralidade discursiva e reconhecimento entre os agentes sociais. Repito, é pelo caminho de uma ética do discurso – ou até mesmo do ouvir – e do educar que poderemos afastar os extremos autoritários, seja da ignorância ou da pretensa luz. A vida é de cores.

Verdades tão absolutas quanto transitórias

Apesar de parecer uma ocorrência muito nova, a transitoriedade das verdades científicas é velha conhecida dos meios acadêmicos. E são várias as razões para isso acontecer.

Foto por Chokniti Khongchum em Pexels.com

Aposto que você já se pegou pensando durante essa pandemia: “Poxa vida, mas esses médicos e cientistas são muito indecisos! Cada semana que passa, eles falam uma coisa sobre essa tal de cloroquina”. Será que é mesmo questão de confusão? Ou seria uma biga política entre bolsonaristas e esquerdistas, trumpistas e OMS-istas?

Apesar de parecer uma ocorrência muito nova, a transitoriedade das verdades científicas é velha conhecida dos meios acadêmicos. E são várias as razões para isso acontecer. 

Primeiro de tudo, há a limitação de cada época. Pense bem: considerando uma sociedade que não tinha conhecimento da existência de microrganismos, acreditar que a vida surgia a partir da combinação de matéria bruta com a miraculosa força vital é algo super razoável. Porém, lá por volta de 1860, após as experimentações de Pasteur, que esterilizou uma solução e assim demonstrou que a vida vinha de algo invisível, mas que, aos poucos, poderia crescer nessa solução, fica mais difícil acreditar naquela primeira teoria.

A habilidade que nós seres humanos temos de aprender e acumular conhecimento produzido por outra pessoa é o que nos possibilita evoluir na ciência. Não é preciso que hoje tenhamos que repetir o conhecimento de Pasteur para ser possível acreditar nele, basta beber aquele leite pasteurizado e ver como a ciência entrou nas nossas rotinas.

Outro exemplo mais recente e mais médico: gastrite nervosa! Alguns podem até perguntar aos pais e avós: você conhece alguém que sofria de gastrite nervosa? De úlceras no estômago dificílimas de tratar? Por décadas, sem saber bem o que causava as temidas úlceras estomacais, as pessoas viviam com restrições alimentares e eram submetidas a cirurgias que cortavam os nervos do estômago na tentativa de diminuir a secreção ácida e, assim, melhorar a doença. A ausência de fator causador óbvio levava as pessoas a acreditar que a principal causa seria psicogênica, ou seja, a mente nervosa levava àquilo, até que, em 1982, a bactéria H pylori foi identificada e associada à doença pela primeira vez. Hoje em dia, nem sequer é cogitada a possibilidade de operar alguém por gastrite! O tratamento é feito com antibióticos específicos para isso.

Segundo, chegamos aos vieses. Vocês já ouviram falar disso?

Quando uma pesquisa está sendo realizada, é importante que o pesquisador ou o laboratório não tenha interesses pessoais com o resultado fruto daquele estudo. Imaginem um estudo que tem a seguinte pergunta: os agrotóxicos são associados ao desenvolvimento de câncer na população que consome alimentos produzidos com o seu uso? Uma pergunta bastante interessante, né? Imaginem que a conclusão é que não há relação nenhuma entre câncer e agrotóxicos. Daria um alívio também, né? Mas aí você descobre que quem patrocinou o estudo foram duas corporações: a maior produtora de alimentos em larga escala de monocultura e a maior produtora de agrotóxicos. Você se sentiria seguro com esse resultado? Eu também não.

Quando discutimos as descobertas científicas e questionamos a validade dos estudos a partir dos vieses de interesse, a conclusão se torna ainda mais morosa. Se, por um lado, o tempo nos permite checar experimentos do passado com novas tecnologias e encontrar novas respostas sem trazer em si um crime ou uma interpretação maldosa, por outro, os estudos que são comprados por grandes corporações ou bancas econômicas e políticas podem trazer danos criminosos para a sociedade.

Trago um exemplo real disso que tem impacto diário em nossa rotina alimentar. Se seu avô morreu infartado aos 45 anos, certamente sua mãe morre de medo de que isso também aconteça com ela. Para prevenir o entupimento das artérias do coração, ela não come carne vermelha com gordura e prefere lanchar um pãozinho integral com uma fatia de ricota, tudo bem levinho, sem gordura. Fato é que os estudos que basearam essas diretrizes que associam gordura e doenças do coração e da circulação foram realizados nas décadas de 1950 e 60, com forte interferência de uma organização da indústria açucareira americana. E qual o objetivo? Afastar o açúcar e os carboidratos das associações com essas doenças e jogar toda a culpa nos alimentos à base de gordura animal.

Só em 2016, uma publicação bombástica numa revista americana de alto impacto na academia médica revelou as correspondências entre a indústria e os pesquisadores da época. Não sabemos quanto tempo ainda será necessário para determinar os agravantes alimentares da saúde, nem se um dia poderemos ter plena confiança em algum estudo, tendo em vista que é uma pauta de alta relevância econômica.

Mas agora você pode estar se perguntando: o que é que a cloroquina tem a ver com tudo isso? Entramos, então, num terceiro ponto que pode alterar o status de verdade de uma premissa científica: a qualidade técnica de um estudo.

Um estudo científico de qualidade apresenta seu questionamento, embasa ou justifica sua pergunta, desenvolve um método para checar a veracidade da dúvida e conclui a partir dos resultados. Os métodos são muito variados, mas, apenas para simplificar o entendimento, o mais próximo do ideal é aquele que compara resultados entre duas ou mais variáveis, sem que o examinador saiba exatamente quem é aquele que está analisando. Um desenho simplificado seria: dentro de uma UTI com vários pacientes internados com Covid-19, a cada admissão, um computador sortearia quem vai receber cloroquina e quem vai receber soro fisiológico; a equipe médica não sabe qual paciente recebeu qual ampola e só depois analisa o desfecho desses dois grupos de doentes. Entretanto, no contexto de pandemia de um vírus de comportamento até o momento desconhecido, com evoluções catastróficas em vários doentes, como é possível realizar esse estudo ideal sem esbarrar em conflitos éticos graves? Dessa forma, vários estudos com métodos questionáveis realizados em curto intervalo de tempo, dada a urgência da situação, foram publicados. E é função da comunidade científica e médica lê-los com crítica e impessoalidade para poder continuar produzindo e compartilhando ciência, sem gerar mais dados à população já tão fragilizada.

Então, esses estudos – até mesmo aqueles que divulgaram errata após suas publicações – tinham como fim ajudar a população mundial diante da necessidade de se ter respostas, sem ter a pretensão de postular uma verdade absoluta. Felizmente, neste momento que escrevo este texto, sabemos que a cloroquina já não é mais aventada como uma possível forma de tratamento da Covid-19, mas que a dexametasona, um corticoide velho conhecido, se usada naqueles doentes graves do CTI, modifica a mortalidade da doença. Não estamos sem luz no fim do túnel!

Enfim, a pandemia escancarou as vulnerabilidades da medicina e não vejo isso com maus olhos. Entendo que todas as pessoas deveriam ser capazes de raciocinar e questionar com seus cuidadores médicos os objetivos de qualquer prescrição, sabendo que, em algum momento, possam ouvir: “Bem, esse medicamento parece poder reduzir o risco de você morrer, mesmo que aumente o risco de você ter diabetes ou outras doenças, mas a verdade absoluta é que não posso, de maneira nenhuma, te prometer um resultado”.

A honra perdida de Katharina Blum

Livro conta a história de uma mulher que passa a ter sua vida privada vasculhada por um jornal sensacionalista.

Em uma quarta-feira à noite Katharina Blum vai a uma festa. Lá, ela conhece Ludwig e convida-o para passar a noite em sua casa. Quinta-feira de manhã a polícia bate à porta de Katharina e ela é conduzida até a delegacia para prestar um depoimento: Ludwig talvez fosse um bandido. O envolvimento de Katharina (uma mulher divorciada e financeiramente independente) com o suposto ladrão chama a atenção de um jornal local que passa a vasculhar sua vida privada e a publicar uma série de reportagens falsas sobre o caso.

Ambientado na Alemanha Ocidental da década de 70, o livro escrito por Heinrich Böll acompanhará o processo de condenação pública de Katharina e os desdobramentos que se deram a partir desta cobertura assediosa e sensacionalista.

Os limites da razão

A ciência supre muito bem as necessidades do modelo de sociedade adotado hoje e a ausência de métodos alternativos pode ser simplesmente uma consequência desse modelo econômico-social. Afinal, qualquer modelo alternativo, seja de ensino, pesquisa, deve atender ao chamado do capital: ser barato e/ou lucrativo.

Foto por faaiq ackmerd em Pexels.com

Certa vez, quando questionado a respeito do seu processo de escrita, o escritor americano E. L. Doctorow respondeu:

“Escrever é como dirigir pela neblina noturna. Você vê apenas até onde os faróis alcançam, mas você pode fazer toda a viagem dessa maneira”

E. L. Doctorow

A resposta é poética e talvez faça muito sentido para o escritor. Porém, o que essa frase não fornece é um método claro de como produzir textos. Talvez não exista mesmo uma fórmula para a escrita que seja tão eficiente quanto a milenar fórmula de Bhaskara (lembra dela?). O ponto é que, se precisássemos formar escritores em massa, a explicação do senhor Doctorow não seria lá muito elucidativa.

A falta de um método preciso permeia todas as artes. Vinícius de Moraes deu a receita de um bom samba:

“Pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza […] Um bom samba é uma forma de oração”

Vinícius de moraes

Que é poética por natureza e ineficaz por definição.

As artes em geral constituem um bom exemplo de atividade humana na qual o pensamento analítico e racional nem sempre é de muita serventia. Ouso dizer até que a racionalidade atrapalha! Contudo, deve ser senso comum que essa afronta à razão seja, de fato, a maior virtude das artes.

Por outro lado, nas demais áreas do conhecimento, é fato que seguimos “matematicalizando” os processos de descoberta, criação e propagação do saber. Para as ciências exatas, a linguagem matemática cai como uma luva e é quase óbvio que de fato temos a linguagem e o método certo para compreender fenômenos físicos de todas as naturezas. Ninguém pode contestar nossos avanços tecnológicos e nossa capacidade de entender o ambiente que nos cerca. Porém, será que isso é verdade para todas as áreas? Posto de outra maneira, o método racional de investigação e difusão do conhecimento é universalmente o melhor? Ou ainda, de modo mais abstrato, teria a razão um limite?

Discutir os limites do pensamento racional não é novidade. Essa questão foi levantada com grande força dentro da filosofia ainda no século XIX. Para mim, mesmo como matemático, há limites para o pensamento racional. Consequentemente, a nossa abordagem racional em virtualmente todas as áreas do conhecimento é limitada, afinal ela herda os limites da razão. Talvez a melhor maneira de tratar distúrbios de ansiedade seja como escrever uma poesia. Talvez os psicólogos e psiquiatras devessem se parecer mais com poetas do que com cientistas se quiséssemos nos aproximar de um possível tratamento ideal.

Ainda assim, não é possível ignorar uma grande vantagem do método científico: ele é extremamente reprodutível. Imagine uma psicóloga ou psicólogo descrevendo o seu método para tratar pacientes com depressão:

“Eu sinto a dor que reverbera pelas células do corpo do meu irmão. Eu o abraço e deixo a minha energia fluir até que esse contato transcendental expurgue de seu coração todo o pulso depressivo.”

Por mais que esse método funcionasse, a tarefa de ensiná-lo a outras pessoas seria quase impossível, pois a abordagem do nosso poeta profissional é totalmente subjetiva e depende fortemente da sua experimentação do mundo. A dificuldade de reproduzir esse fabuloso método de expulsão do sofrimento teria uma implicação imediata: o método morreria com quem o concebeu.

O que nos trouxe até aqui foi a nossa grande capacidade de registrar e reproduzir o conhecimento adquirido pelas gerações anteriores, o fato de que podemos nos apoiar em “ombros de gigantes”, como lembrou Isaac Newton. E os métodos que seguem pensamento dedutivo e racional têm naturalmente a qualidade de serem reprodutíveis. Nesse sentido, talvez tenhamos, sim, um dos melhores métodos, pois por ele conseguimos propagar e aplicar de maneira precisa e em larga escala os resultados das nossas descobertas.

Vale a pena lembrar ao leitor que essa aplicabilidade em massa se faz absolutamente necessária quando se leva em consideração dois aspectos da nossa organização social atual: vivemos em cidades de dezenas de milhões de habitantes e pautamos nosso desenvolvimento no crescimento econômico.

A título de ilustração: em uma sociedade tão grande e sob o modelo econômico que adotamos, não é factível ter um método de ensino para cada cidadão, por exemplo. Um modelo assim exigiria do educador domínio de uma enorme quantidade de métodos de ensino ou exigiria uma demanda gigantesca por professores. Uma consequência direta dessa enorme demanda seria o encarecimento da educação. Além disso, a ausência de um método eficiente e uniforme para a formação de professores tornaria impossível a tarefa de suprir essa necessidade.

Não que tenhamos desenvolvido a ciência para suprir uma logística, afinal um método científico muito próximo do atual foi introduzido por Aristóteles com o intuito de formalizar o pensamento racional séculos e séculos antes da Primeira Revolução Industrial, quando demos o primeiro passo rumo ao tipo de sociedade que temos hoje. O ponto principal é que a ciência supre muito bem as necessidades do modelo de sociedade adotado hoje e a ausência de métodos alternativos pode ser simplesmente uma consequência desse modelo econômico-social. Afinal, qualquer modelo alternativo, seja de ensino, pesquisa, deve atender ao chamado do capital: ser barato e/ou lucrativo.

No fim das contas, talvez, nessa altura do campeonato, a pergunta mais apropriada não seja se a ciência é ou não a melhor maneira de entender o mundo, mas sim, como queremos nos organizar em sociedade. Se a resposta continuar sendo baseada no crescimento econômico, então, talvez, não haja espaço para a subjetividade fora das artes, porque estaríamos sempre sujeitos às exigências do lucro e da logística.