Verdades tão absolutas quanto transitórias

Apesar de parecer uma ocorrência muito nova, a transitoriedade das verdades científicas é velha conhecida dos meios acadêmicos. E são várias as razões para isso acontecer.

Foto por Chokniti Khongchum em Pexels.com

Aposto que você já se pegou pensando durante essa pandemia: “Poxa vida, mas esses médicos e cientistas são muito indecisos! Cada semana que passa, eles falam uma coisa sobre essa tal de cloroquina”. Será que é mesmo questão de confusão? Ou seria uma biga política entre bolsonaristas e esquerdistas, trumpistas e OMS-istas?

Apesar de parecer uma ocorrência muito nova, a transitoriedade das verdades científicas é velha conhecida dos meios acadêmicos. E são várias as razões para isso acontecer. 

Primeiro de tudo, há a limitação de cada época. Pense bem: considerando uma sociedade que não tinha conhecimento da existência de microrganismos, acreditar que a vida surgia a partir da combinação de matéria bruta com a miraculosa força vital é algo super razoável. Porém, lá por volta de 1860, após as experimentações de Pasteur, que esterilizou uma solução e assim demonstrou que a vida vinha de algo invisível, mas que, aos poucos, poderia crescer nessa solução, fica mais difícil acreditar naquela primeira teoria.

A habilidade que nós seres humanos temos de aprender e acumular conhecimento produzido por outra pessoa é o que nos possibilita evoluir na ciência. Não é preciso que hoje tenhamos que repetir o conhecimento de Pasteur para ser possível acreditar nele, basta beber aquele leite pasteurizado e ver como a ciência entrou nas nossas rotinas.

Outro exemplo mais recente e mais médico: gastrite nervosa! Alguns podem até perguntar aos pais e avós: você conhece alguém que sofria de gastrite nervosa? De úlceras no estômago dificílimas de tratar? Por décadas, sem saber bem o que causava as temidas úlceras estomacais, as pessoas viviam com restrições alimentares e eram submetidas a cirurgias que cortavam os nervos do estômago na tentativa de diminuir a secreção ácida e, assim, melhorar a doença. A ausência de fator causador óbvio levava as pessoas a acreditar que a principal causa seria psicogênica, ou seja, a mente nervosa levava àquilo, até que, em 1982, a bactéria H pylori foi identificada e associada à doença pela primeira vez. Hoje em dia, nem sequer é cogitada a possibilidade de operar alguém por gastrite! O tratamento é feito com antibióticos específicos para isso.

Segundo, chegamos aos vieses. Vocês já ouviram falar disso?

Quando uma pesquisa está sendo realizada, é importante que o pesquisador ou o laboratório não tenha interesses pessoais com o resultado fruto daquele estudo. Imaginem um estudo que tem a seguinte pergunta: os agrotóxicos são associados ao desenvolvimento de câncer na população que consome alimentos produzidos com o seu uso? Uma pergunta bastante interessante, né? Imaginem que a conclusão é que não há relação nenhuma entre câncer e agrotóxicos. Daria um alívio também, né? Mas aí você descobre que quem patrocinou o estudo foram duas corporações: a maior produtora de alimentos em larga escala de monocultura e a maior produtora de agrotóxicos. Você se sentiria seguro com esse resultado? Eu também não.

Quando discutimos as descobertas científicas e questionamos a validade dos estudos a partir dos vieses de interesse, a conclusão se torna ainda mais morosa. Se, por um lado, o tempo nos permite checar experimentos do passado com novas tecnologias e encontrar novas respostas sem trazer em si um crime ou uma interpretação maldosa, por outro, os estudos que são comprados por grandes corporações ou bancas econômicas e políticas podem trazer danos criminosos para a sociedade.

Trago um exemplo real disso que tem impacto diário em nossa rotina alimentar. Se seu avô morreu infartado aos 45 anos, certamente sua mãe morre de medo de que isso também aconteça com ela. Para prevenir o entupimento das artérias do coração, ela não come carne vermelha com gordura e prefere lanchar um pãozinho integral com uma fatia de ricota, tudo bem levinho, sem gordura. Fato é que os estudos que basearam essas diretrizes que associam gordura e doenças do coração e da circulação foram realizados nas décadas de 1950 e 60, com forte interferência de uma organização da indústria açucareira americana. E qual o objetivo? Afastar o açúcar e os carboidratos das associações com essas doenças e jogar toda a culpa nos alimentos à base de gordura animal.

Só em 2016, uma publicação bombástica numa revista americana de alto impacto na academia médica revelou as correspondências entre a indústria e os pesquisadores da época. Não sabemos quanto tempo ainda será necessário para determinar os agravantes alimentares da saúde, nem se um dia poderemos ter plena confiança em algum estudo, tendo em vista que é uma pauta de alta relevância econômica.

Mas agora você pode estar se perguntando: o que é que a cloroquina tem a ver com tudo isso? Entramos, então, num terceiro ponto que pode alterar o status de verdade de uma premissa científica: a qualidade técnica de um estudo.

Um estudo científico de qualidade apresenta seu questionamento, embasa ou justifica sua pergunta, desenvolve um método para checar a veracidade da dúvida e conclui a partir dos resultados. Os métodos são muito variados, mas, apenas para simplificar o entendimento, o mais próximo do ideal é aquele que compara resultados entre duas ou mais variáveis, sem que o examinador saiba exatamente quem é aquele que está analisando. Um desenho simplificado seria: dentro de uma UTI com vários pacientes internados com Covid-19, a cada admissão, um computador sortearia quem vai receber cloroquina e quem vai receber soro fisiológico; a equipe médica não sabe qual paciente recebeu qual ampola e só depois analisa o desfecho desses dois grupos de doentes. Entretanto, no contexto de pandemia de um vírus de comportamento até o momento desconhecido, com evoluções catastróficas em vários doentes, como é possível realizar esse estudo ideal sem esbarrar em conflitos éticos graves? Dessa forma, vários estudos com métodos questionáveis realizados em curto intervalo de tempo, dada a urgência da situação, foram publicados. E é função da comunidade científica e médica lê-los com crítica e impessoalidade para poder continuar produzindo e compartilhando ciência, sem gerar mais dados à população já tão fragilizada.

Então, esses estudos – até mesmo aqueles que divulgaram errata após suas publicações – tinham como fim ajudar a população mundial diante da necessidade de se ter respostas, sem ter a pretensão de postular uma verdade absoluta. Felizmente, neste momento que escrevo este texto, sabemos que a cloroquina já não é mais aventada como uma possível forma de tratamento da Covid-19, mas que a dexametasona, um corticoide velho conhecido, se usada naqueles doentes graves do CTI, modifica a mortalidade da doença. Não estamos sem luz no fim do túnel!

Enfim, a pandemia escancarou as vulnerabilidades da medicina e não vejo isso com maus olhos. Entendo que todas as pessoas deveriam ser capazes de raciocinar e questionar com seus cuidadores médicos os objetivos de qualquer prescrição, sabendo que, em algum momento, possam ouvir: “Bem, esse medicamento parece poder reduzir o risco de você morrer, mesmo que aumente o risco de você ter diabetes ou outras doenças, mas a verdade absoluta é que não posso, de maneira nenhuma, te prometer um resultado”.

Autor: Ana Borges

Interessada em pessoas e suas complexas expressões, especializou-se nas entranhas humanas: cirurgiã geral, do trauma e do aparelho digestivo. Acredita que afeto é essencial à vida e, por isso, gosta de cozinhar para agradar aquele que se alimenta (do carinho dela).

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