A Honra Perdida de Katharina Blum: impressões de leitura

Três impressões bem diferentes do primeiro livro do nosso clube. Podem ler sem medo de “spoiler”.

o que você tem a dizer sobre a honra perdida de katharina blum?

Leitura de Vanessa Ribeiro

Confesso que, quando vi que se tratava de um livro alemão e descobri que era um enredo que começava com assassinato, achei que leria um romance policial. No entanto, o enredo não teve o final “fechadinho” que se espera dos krimis alemães e, ainda por cima, trata uma outra questão, que é mais universal e um tanto atemporal: a difamação de uma mulher irrepreensível por causa da suspeita de seu envolvimento com um homem criminoso. Ela, inclusive, é xingada de “puta comunista” – tem como ser mais 2020 que isso? A diferença é que a história se passa na Berlim ocidental dos anos 70, ou seja, a aversão ao comunismo fazia algum sentido.  

Bem isso não importa… o importante é que Katharina Blum era, como o próprio autor descreve na entrevista que consta no epílogo do livro, a doméstica perfeita: organizada, simpática, se impunha quando necessário. Todos eram apaixonados ou se apaixonam por Katharina (inclusive o próprio Heinrich Böll). Além disso, Katharina representa a realização da promessa capitalista de que trabalhando duro se vence na vida: tinha origem humilde, vários empregos, um carro próprio e um apartamento financiado. O sucesso econômico lhe deu, inclusive, liberdade para escolher como e com quem se relacionar. Mas pode uma mulher se tornar um self-made-man sem criar desconforto ou levantar suspeitas? Será que haveria história – ou honra perdida – se Katharina fosse um homem? O sucesso da nossa jovem protagonista é um “tapa na cara da sociedade”, mas foi a reputação dela que pagou por isso, sendo atacada com ainda mais violência… E a cada violência vão se destruindo honras, vidas e se construindo o enredo da obra. 

Leitura de Luiz Moreira

Heinrich Böll escreveu A Honra Perdida de Katharina Blum e, quase meio século depois, quando um Pedro indicou o livro num story, me lembrei de uma discussão sobre “o que é honra?” com um outro Pedro. Eu acho tão confuso! Digitei no Google mais uma vez “honra” e continuei perdido. Será que é difícil pra eu entender esse conceito porque, diferente da Katharina, nunca fui privado de nada remotamente parecido? Foi com isso na cabeça que abri o livro e comecei a ler.

As duas primeiras folhas me chamaram a atenção, a história já ganha seu “final”: quatro dias depois do Weiberfastnacht, uma jovem confessa ao superintendente de polícia Walter Moeding que assassinou a tiros o jornalista Werner Tötges. Em mais algumas páginas, o final ganha a companhia de um começo: Katharina, a jovem, conheceu Götten, um procurado pela polícia, numa festa na casa de amigos. Eles passaram a noite na casa dela e ela o ajudou a fugir. E o JORNAL cobriu toda essa história de uma maneira sensacionalista.

O desprendimento do autor com o suspense me prendeu logo de cara. Senti que a história não era sobre o que aconteceu, mas sobre como o que aconteceu é contado. Só com o começo e o fim da história, me senti convidado a completá-la (assim como o JORNAL o foi?). E o livro, contando a história, mostra como aceitar esse convite é perigoso.

A história é escrita de uma maneira documental. Como num bom documentário, o narrador disseca a história sempre acrescentando novos fatos e novos níveis aos fatos. E, como num excelente documentário, é explicitado que é muito difícil ter uma imagem geral dos acontecimentos. Ele fala que a única intenção do texto é organizar os relatos e até se desculpa:

“[…] se em alguma passagem dessa narrativa houver fluidez, … pede-se benevolência[…]”.

Essa fluidez é o que o jornal tentou colocar nos fatos para vender a manchete e também o que eu tentei colocar no que eu entendia da narrativa quando ganhei de presente o fim e o começo. Pra deixar claro o perigo dessa busca por uma história fluida, o texto, com toda a sua estrutura factual, se apresenta como “mais uma versão”. Algumas informações nunca são explicitadas no livro. Várias vezes fiquei perdido sem saber de qual fonte veio determinado relato. Até a voz do texto parece ter sido meticulosamente selecionada com essa intenção. Ele é escrito na primeira pessoa do plural, e eu mesmo nunca consegui decidir se o narrador é ou não um personagem da história.

Nas várias buscas por uma história fluida, nunca é permitido à Katharina fluir sua versão. E essa tensão é levada até a última página do livro. Katharina não flui; perdida, então, sua honra. Assim finalmente consegui sair da minha zona de conforto e entender um pouco mais a definição de honra que vi no Google: “princípio que leva alguém a ter uma conduta proba, virtuosa, corajosa, e que lhe permite gozar de bom conceito junto à sociedade”.

Leitura de Pedro Franklin

Em uma quinta-feira de manhã, a polícia bate à porta de Katharina Blum à procura de um suposto ladrão chamado Ludwig. Lá ele não estava e a senhorita Blum é conduzida à delegacia para que seu testemunho fosse registrado. Três dias após esse depoimento, ela se entrega à polícia horas depois de assassinar Werner Tötges. É assim que começa a narrativa de A honra perdida de Katharina Blum: pelo início e fim da história. A partir daí, o livro reconstituirá, através dos depoimentos de várias pessoas, os acontecimentos que se sucederam entre estes dois pontos impessoais: condução à delegacia e assassinato.

O livro possui um subtítulo: “de como surge a violência e para onde ela pode levar”. Na narrativa, Katharina começa a ser agredida psicologicamente pelos interrogadores durante seu primeiro depoimento. À medida que o interrogatório transcorre, fica evidente o desconforto que a protagonista gera nos policiais pelo simples fato de ser uma mulher inteligente, independente, dona de um apartamento e de um carro. E justamente por possuir essas características que Katharina é ainda mais violentada. A violência ganha proporções maiores quando O JORNAL passa a publicar e distorcer detalhes da sua vida privada e das pessoas que possuem ligação com ela. A humilhação, antes reservada apenas às quatro paredes da delegacia, agora ganha as ruas e Katharina é condenada publicamente e, inclusive, começa a receber cartas e telefonemas intimidadores.

A violência praticada pelos policiais e pelo JORNAL possui um ponto em comum: nos dois casos, as agressões se deram a partir da escolha de determinadas palavras: “Ele te comeu?”, por exemplo, é a pergunta que um delegado dirige a Katharina durante um dos interrogatórios. Do outro lado, O JORNAL alterou propositadamente os depoimentos de quase todas as pessoas que ele entrevistou (“inteligente e fria” se tornou, por exemplo, “gélida e calculista”), criando, assim, uma outra narrativa para o público. Ainda nessa direção, é preciso ressaltar a qualidade do texto de A honra perdida de Katharina Blum. Escrito por Heinrich Böll em 1974, o livro possui uma redação que caminha em consonância com a história retratada. Seu texto tem o formato de uma reportagem jornalística e o narrador, em muitos momentos, parece ser uma das testemunhas dos crimes. Caso ele seja, algumas perguntas podem surgir a partir dessa suposição: a pessoa que está nos contando a história está, de fato, nos contando o que realmente aconteceu? Devemos confiar nessa testemunha que não conhecemos? Mesmo que não tenhamos informações suficientes para responder a essas perguntas, elas servem para nos lembrar de que toda narrativa é contada a partir de um olhar específico e aquilo que o outro enxerga não é necessariamente aquilo que eu enxergo.

Para onde a violência leva é pergunta que não tem resposta. Pode ser que leve a mais violência. Depois de três dias de intensos ataques, Katharina mata Werner. A violência psicológica se transformou, aqui, na violência da bala. Por outro lado, o narrador-testemunha não nos informa o desfecho das outras personagens violentadas na história, como os amigos e familiares da senhorita Blum. Mas essa ausência dos conhecimentos dos fatos futuros também é perigosa. É difícil precisar qual será a gota d’água que fará o balde transbordar. Por outro lado, a ausência de explicação sobre o que aconteceu com determinados personagens permite que a violência da história continue pairando no ar. Coisa típica do terrorismo: talvez o medo que se instale nas pessoas após um ato terrorista tenha mais poder de destruição do que o ato terrorista em si.

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