E se todo dia fosse como feriado?

Esse desconforto me acompanha desde criança. Esteve lá por toda a minha vida, por isso demorei a perceber que não era parte das leis da natureza.

Esse desconforto me acompanha desde criança. Esteve lá por toda a minha vida, por isso demorei a perceber que não era parte das leis da natureza.

Quem me levou à escola, preparou minhas refeições e passou as tardes comigo não foi minha mãe. Minha mãe, ela saía de manhã cedo para o trabalho e voltava exausta de noite. Sem tempo, sem ânimo para diálogos. Recentemente ela se aposentou. E eu iniciei meu caminho no mercado de trabalho. Ela sente que perdeu propósito. E eu?

Trabalhar como doutoranda na universidade, pesquisando matemática. Já havia aí a dúvida se algo era de fato produzido – sem entrar no mérito se o produto tinha valor ou não. Pelo menos eu estava ali na universidade. De repente, pandemia! Horas de trabalho não são mais definidas como aquelas que se passa na empresa.

Um inspetor passa aqui em casa: “Por favor senhora, pode me mostrar pelo que estamos lhe remunerando?’”

Mostro-lhe minhas anotações e rabiscos incompreensíveis. Ele me diz: “Sr.Ramanujan na Índia entrega um trabalho muito superior e ganha menos. Você está a dever”.

Penso: “Talvez eu deva recompensar minha improdutividade, minha lentidão e distração com algumas horas a menos de sono. Talvez meus amigos não precisem de mim, nem minha família. Eles concordam e compreendem. Meus hobbies… o que é que se ganha com eles? Ou talvez se me apressar… Não sou preguiçosa, nunca fui. Sou dedicada e amo o que faço”.

Essa é minha síndrome. Essa era a síndrome de minha mãe. O trabalho como definição de caráter, ao passo que “trabalho” perde sua definição.

O trabalho como definição de caráter, ao passo que “trabalho” perde sua definição.

“Trabalho é aquilo que não se quer fazer, mas precisa ser feito”. Em troca, recebe-se um salário. Talvez fosse assim na reconstrução do Pós-Guerra, na era da Primeira Revolução Industrial. O quanto se remunera depende da “oferta e procura” e das forças que gerem a economia. Comparado à situação anterior, finalmente ter bens e poder aquisitivo era sinônimo de prosperidade.

Máquinas começaram a automatizar os processos e a população mundial explodiu. Inventou-se a venda de serviços, sapateiros, médicos, comerciantes. “Trabalho é sua contribuição para a sociedade”. A clientela é agora mais pessoal e é ela quem paga seu salário. Surge espaço para a propaganda, moda e ideais se disseminam. Finalmente a emancipação feminina e a revolução digital, há mais pessoas no mercado de trabalho e mais vontade de expor sua voz.

Hoje em dia se é jogador de futebol, youtuber, matemático… “Trabalho é aquilo que nos permite desenvolver nossas aptidões e paixões”. Um sentido para existência! Como? Será que posso viver cada dia cuidando de quem amo e do que amo e isso me faz responsável? Não, não tão longe. Isso lhe faz inconsequente.

Ainda existe a questão da remuneração. Apenas algumas paixões são reconhecidas pela sociedade. Sociedade é esse tipo de ordem que aparece quando se junta pessoas. O cuidado de uma mãe tem valor na sociedade que se constrói entre poucos, dentro de uma casa. Uma demonstração de um teorema tem valor na sociedade de matemáticos. Porém para ser remunerado, é preciso ter-se o reconhecimento de quem?

Confiar em nosso próprio julgamento do que é importante requer muita coragem. Mesmo quando todos parecemos concordar que cuidar de nossas famílias, de nossa saúde é primordial, algo no sistema parece nos dizer o contrário. Esse desconforto que sempre esteve aí não faz parte das leis da natureza, é uma patologia do sistema que não se atualizou! Mudamos do trabalho em fábricas para a prestação de serviços e daí, para serviços cada vez mais abstratos. Será que ainda precisamos dar nomes a todas as profissões a serem reconhecidas?

Autor: Giulia Maesaka

Sou sempre mais que um. Meio oriental, meio ocidental. Cientista molecular, amo interdisciplinaridade. Moro em Hamburgo, alles in Ordnung, mas o caos de São Paulo não sai de mim. Se puder, sou onda e partícula!

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