O Alzheimer e o luto

Eu não conheci meus avôs, mas as minhas avós foram muito presentes na minha vida. A minha avó por parte de pai se chamava Maria e tinha uma mãe índia que se chamava Letícia (por que uma índia tem um nome latino eu também não sei). A bisa Letícia, segundo a minha avó, tinha um cabelo preto liso enorme, “parecia mais uma capa preta”. A vó Maria gostava muito de falar, ela conversava com a TV quando assistia às novelas mexicanas do SBT: “ele não gosta de você, sua bandida! Ele gosta é da outra”. Ela não fazia graça, mas era muito engraçada; dava pra gente chá-mate bem docinho, mesmo sendo diabética, e cozinhava o melhor feijão que eu já comi na vida. Nas viagens de férias na praia, ela ficava na beirada do mar e molhava as costas com o nosso baldinho de areia. “Vó, por que a senhora não vai lá pro fundo?” “E por acaso você tem um guindaste pra me tirar de lá?” E a gente ria, ria, e molhava as costas dela com o baldinho.

Um pouco antes de vovó morrer, ela passou um tempo no hospital. Fui fazer uma visita sozinha, já que não podia haver muitas pessoas ali. Fui pensando em palavras de conforto, novidades etc., mas foi ela quem falou o tempo todo. Mesmo com uma sonda na garganta e com dor para falar, ela me contou que a vizinha estava vendendo umas calcinhas ótimas, com um preço muito bom. Também me mostrou com orgulho a fralda geriátrica de elástico que minha mãe tinha levado pra ela, disse que gostava muito da minha mãe e depois explicou o porquê. Eu saí de lá rindo, “o corpo doente, mas a cabeça está ótima…”

Quando vovó morreu, eu tentei ir ao trabalho para não pensar muito nisso e me sentir melhor. Mas lá no serviço as pessoas me mandaram ir embora, porque o luto, ainda mais de uma avó, precisa ser respeitado. No cemitério eu despedi da minha avó, ela havia partido para sempre e levado com ela o feijão mais maravilhoso que eu já comi. 

Já a minha avó por parte de mãe se chamava Nilda e era filha de italianos. O pai dela era serralheiro e a mãe havia falecido quando ela era ainda muito criança. Como nesses filmes antigos, ela frequentou um colégio francês só para meninas e foi criada pela irmã do pai, que era má com ela e com os outros irmãos. 

A gente morava na casa da vó Nilda, o que fazia a convivência mais intensa e mais cheia de gritos e brigas, nada grave, só estilo italiano de intimidade mesmo. Vovó era brava e gostava de manter a casa toda arrumada já de manhã. Ela tinha o costume de tirar os pratos antes mesmo de a gente terminar de comer, tudo para poder arrumar a cozinha o mais rápido possível. 

Nas férias na praia, a vó Nilda era a que dormia na cama de cima do beliche das avós (a vó Maria dormia embaixo), era a que ia nadar no fundo do mar – onde a gente não podia ir porque não dava pé – e ficava boiando. Também era a que jogava buraco e tomava cerveja com os adultos enquanto a avó Maria tomava refrigerante diet e via novela com as crianças. A vó Nilda não parecia tanto uma avó, acho que por essa independência e também por causa do nosso convívio cotidiano, que evolui as relações. Ela tratava a mim e meu irmão com menos cerimônia e mais gritos, a educação à italiana que ela conhecia. A gente obedecia, mas às vezes respondia aos xingos com risadas, o que dava alguma leveza à obrigação árdua que ela tinha de nos manter sob controle. Até que vovó adoeceu. 

A vó Nilda começou a ficar meio caduca: não entendia direito o que a gente perguntava, olhava pra gente com olhar perdido. Começou a contar umas histórias doidas, expulsar o Stéfano lá de casa – o meu primo que morava em frente e fazia companhia pra vovó a pedido da mamãe – e pedir pra que a gente a levasse para casa: “liga pro meu pai que ele vem me buscar”, ela dizia. E a casa que era tão dela – arrumada de manhã, com os pratos da refeição não terminada já limpos na cozinha – não fazia mais sentido: “meu endereço é rua Olegário Maciel”, que era a sua casa da infância, da tia má e da oficina do pai. “Me leva pra casa, estão me prendendo aqui”. E agora éramos eu e meu irmão que tínhamos a obrigação árdua de mantê-la sob controle: “calma, vó, não precisa gritar, a senhora está em casa!” 

Isso sem contar as fugas! Alguns vizinhos já haviam batido lá em casa avisando que viram minha avó descendo a rua correndo – sim, correndo! Tivemos que começar a esconder as chaves da casa e verificar sempre se o portão estava trancado. Também tivemos que colocar grades nas janelas, porque minha tia que mora em frente viu ela tentando fugir – sim, tentando pular a janela. Eu encarei a notícia rindo: “a cabeça doente, mas o corpo está ótimo…”

Além de trancar a minha vó na sua própria casa e tentar convencê-la sei lá como de que ela estava em casa, meu irmão, uma vez, deu voltas de carro com ela no quarteirão: “uma tática boa”, diziam. Quando eles voltaram, porém, ela foi muito mais lúcida do que a gente imaginava: “você só deu uma volta comigo e viemos para o mesmo lugar!” E os xingos e os gritos se misturaram com os soquinhos que ela costumava dar nos nossos braços: “me leva pra casa, liga pros meus pais, eles vêm me buscar. Eu moro na Olegário Maciel”.

Todos os dias era o mesmo dilema: “vó, eu juro, a senhora está em casa!” Aí, além dos gritos para que os vizinhos ou as pessoas que passavam na rua a socorressem e as tentativas de fuga, ela passou a ligar para o celular da minha mãe. Sim, ela não sabia onde ela estava, mas sabia de cor o celular da minha mãe. Então, além das grades das janelas, de esconder as chaves, passamos também a vigiar o telefone fixo. Minha mãe dirigia uma van escolar e não podia atender ligações ao volante. A gente sabia disso e raramente ligava para ela do telefone de casa, só quando era uma emergência. Daí já se pode imaginar o susto que minha mãe levou quando recebeu uma ligação de casa, mas o misto de emoções quando ela atendeu e era a minha avó dizendo que estava presa e pedindo que a levasse embora para a Olegário Maciel. Então a minha mãe começou a adoecer junto com ela…

Numa dessas crises diárias de “me leva daqui, aqui não é minha casa”, eu respirei fundo e mostrei pra ela uma foto: “olha, vó, a senhora está em casa! Esta foto é sua, na sua cristaleira, esta cristaleira é sua, não é? Olha suas taças, a foto do Lucianinho…” Ela olhou bem a foto, olhou a cristaleira, e disse: “olha, é mesmo, estou em casa! Me desculpa, viu, minha filha?” E sentou no sofá e voltou a ver TV. Claro que isso durou algum tempo e o “me leva pra casa” aconteceu de novo. Mas, neste dia específico, eu me senti bem mal: eu tive a impressão de que a minha vó teve um lapso de lucidez e se sentiu mal por estar sendo inconveniente. Me senti mal por ela, imaginando que deve ser a pior das sensações se perceber louca. A gente lida com o descontrole de alguém diariamente e se esquece que a maior dor deve ser justamente deste outro que não consegue se controlar. 

Este dia em especial ficou muito na minha cabeça, até que, refletindo sobre a pessoa da minha vó e quem ela foi a vida inteira antes de adoecer, fui eu que tive um “lapso de lucidez”: aquela não era a minha vó, principalmente naquele momento que eu acreditava ser um “lapso de lucidez”. A minha vó Nilda nunca pediria desculpa e nunca se deixaria convencer assim tão fácil. A minha vó Nilda é a que tira o prato de comida antes de a gente terminar, é a gente que pede desculpa por demorar a comer. E no momento que eu pensei ter a minha vó de volta foi justamente o momento em que eu a perdi. 

Perceber que aquela pessoa que está ali não é mais a sua avó é a parte mais doída pra quem convive com alguém que tem Alzheimer. É tão doído que a gente ignora esse fato e só reconhece depois que a pessoa morre. Não lembrar parece ser um grande antídoto pra dor, apesar de ser justamente o que deixa o Alzheimer tão difícil. Isso ficou bem claro quando meu tio morreu, o filho preferido da vó Nilda. Ele e a família moravam em frente, então, no dia da morte dele, as pessoas vinham ver minha tia e meus primos e aproveitavam para ver minha mãe e minha avó. Meu irmão estava nos Estados Unidos, minha mãe estava muito abalada e meu outro tio morava em Ipatinga e veio de carro pra BH em menos de 3 horas de viagem. Cabia a mim atender a porta, dar informações de velório e checar minha mãe e minha avó. Minha mãe chorava muito e tentava conversar com as visitas, que eram os vizinhos, parentes, amigos da família. Minha avó só ouvia o que as pessoas diziam e olhava para todo mundo com um olhar perdido. Teve uma hora em que ela disse a uma das pessoas que estava ali: “não consigo aceitar o que aconteceu com meu irmão”. No mesmo dia eu contei aquilo pra minha mãe e foi um daqueles instantes que a gente ri muito, mesmo que o momento seja só triste, porque já estamos muito à flor da pele. A minha tia-prima também riu e disse que Deus sabe o que faz, por poupar minha vó da pior dor de todas, que é perder o filho, e justamente o preferido. 

No velório, durante o cortejo com o corpo do meu tio até o jazigo onde ele seria enterrado, eu dei o braço para minha vó e a levei comigo. Ao longo de toda a caminhada ela me perguntou aonde estávamos indo. Ela viu o enterro, viu a Bia (a primogênita do meu tio e, por sucessão, a neta preferida) chorando e não teve nenhuma reação, a não ser o olhar perdido que já era tão comum. Enterrado o corpo, dei-lhe novamente o braço e ela só me perguntou “é aqui que o carro do seu pai está estacionado?” Eu tinha perdido um tio e uma avó. 

A vó Nilda teve um infarto e ficou dias no hospital, inclusive o próprio aniversário. Os netos, minha mãe e minha tia se revezavam para dormir com ela. Ela não tinha qualquer reação, estava entubada, só escutávamos sua respiração. Ela se foi no dia em que o Stéfano era o acompanhante – sim, o Stéfano que ela mandava embora quando ele ia lhe fazer companhia. 

Nós choramos a morte da vovó, mas qual? Eu tive duas vós Nilda: a primeira que xingava e que fazia questão de deixar a casa o tempo todo arrumada; e a segunda, que tinha o olhar perdido e mal sabia quem eu era. Essa segunda D. Nilda me causou dor e adoeceu minha mãe por nos lembrar diariamente que a minha vó de verdade já não estava ali e por não ter deixado nem menos um espaço pra dizer um adeus genuíno, com lágrimas e um luto decente; mas o cuidado que tínhamos com ela, além da convivência, nos obrigou a amá-la como se ela fosse nossa. Assim como eu aprendi a amar e obedecer a avó brava – e depois descobrir que ela era “brava” principalmente no sentido italiano da palavra – eu também aprendi a amar aquela outra pessoa no corpo da minha vó, uma criança que não conhecia ninguém ali e só queria ir pra casa. Nem vimos quando a primeira D. Nilda realmente se foi, mas choramos ao ver a segunda ir. A verdade é que só quando enterramos o corpo que nos permitimos chorar o luto que a gente vivia diariamente.