Os limites da razão

A ciência supre muito bem as necessidades do modelo de sociedade adotado hoje e a ausência de métodos alternativos pode ser simplesmente uma consequência desse modelo econômico-social. Afinal, qualquer modelo alternativo, seja de ensino, pesquisa, deve atender ao chamado do capital: ser barato e/ou lucrativo.

Foto por faaiq ackmerd em Pexels.com

Certa vez, quando questionado a respeito do seu processo de escrita, o escritor americano E. L. Doctorow respondeu:

“Escrever é como dirigir pela neblina noturna. Você vê apenas até onde os faróis alcançam, mas você pode fazer toda a viagem dessa maneira”

E. L. Doctorow

A resposta é poética e talvez faça muito sentido para o escritor. Porém, o que essa frase não fornece é um método claro de como produzir textos. Talvez não exista mesmo uma fórmula para a escrita que seja tão eficiente quanto a milenar fórmula de Bhaskara (lembra dela?). O ponto é que, se precisássemos formar escritores em massa, a explicação do senhor Doctorow não seria lá muito elucidativa.

A falta de um método preciso permeia todas as artes. Vinícius de Moraes deu a receita de um bom samba:

“Pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza […] Um bom samba é uma forma de oração”

Vinícius de moraes

Que é poética por natureza e ineficaz por definição.

As artes em geral constituem um bom exemplo de atividade humana na qual o pensamento analítico e racional nem sempre é de muita serventia. Ouso dizer até que a racionalidade atrapalha! Contudo, deve ser senso comum que essa afronta à razão seja, de fato, a maior virtude das artes.

Por outro lado, nas demais áreas do conhecimento, é fato que seguimos “matematicalizando” os processos de descoberta, criação e propagação do saber. Para as ciências exatas, a linguagem matemática cai como uma luva e é quase óbvio que de fato temos a linguagem e o método certo para compreender fenômenos físicos de todas as naturezas. Ninguém pode contestar nossos avanços tecnológicos e nossa capacidade de entender o ambiente que nos cerca. Porém, será que isso é verdade para todas as áreas? Posto de outra maneira, o método racional de investigação e difusão do conhecimento é universalmente o melhor? Ou ainda, de modo mais abstrato, teria a razão um limite?

Discutir os limites do pensamento racional não é novidade. Essa questão foi levantada com grande força dentro da filosofia ainda no século XIX. Para mim, mesmo como matemático, há limites para o pensamento racional. Consequentemente, a nossa abordagem racional em virtualmente todas as áreas do conhecimento é limitada, afinal ela herda os limites da razão. Talvez a melhor maneira de tratar distúrbios de ansiedade seja como escrever uma poesia. Talvez os psicólogos e psiquiatras devessem se parecer mais com poetas do que com cientistas se quiséssemos nos aproximar de um possível tratamento ideal.

Ainda assim, não é possível ignorar uma grande vantagem do método científico: ele é extremamente reprodutível. Imagine uma psicóloga ou psicólogo descrevendo o seu método para tratar pacientes com depressão:

“Eu sinto a dor que reverbera pelas células do corpo do meu irmão. Eu o abraço e deixo a minha energia fluir até que esse contato transcendental expurgue de seu coração todo o pulso depressivo.”

Por mais que esse método funcionasse, a tarefa de ensiná-lo a outras pessoas seria quase impossível, pois a abordagem do nosso poeta profissional é totalmente subjetiva e depende fortemente da sua experimentação do mundo. A dificuldade de reproduzir esse fabuloso método de expulsão do sofrimento teria uma implicação imediata: o método morreria com quem o concebeu.

O que nos trouxe até aqui foi a nossa grande capacidade de registrar e reproduzir o conhecimento adquirido pelas gerações anteriores, o fato de que podemos nos apoiar em “ombros de gigantes”, como lembrou Isaac Newton. E os métodos que seguem pensamento dedutivo e racional têm naturalmente a qualidade de serem reprodutíveis. Nesse sentido, talvez tenhamos, sim, um dos melhores métodos, pois por ele conseguimos propagar e aplicar de maneira precisa e em larga escala os resultados das nossas descobertas.

Vale a pena lembrar ao leitor que essa aplicabilidade em massa se faz absolutamente necessária quando se leva em consideração dois aspectos da nossa organização social atual: vivemos em cidades de dezenas de milhões de habitantes e pautamos nosso desenvolvimento no crescimento econômico.

A título de ilustração: em uma sociedade tão grande e sob o modelo econômico que adotamos, não é factível ter um método de ensino para cada cidadão, por exemplo. Um modelo assim exigiria do educador domínio de uma enorme quantidade de métodos de ensino ou exigiria uma demanda gigantesca por professores. Uma consequência direta dessa enorme demanda seria o encarecimento da educação. Além disso, a ausência de um método eficiente e uniforme para a formação de professores tornaria impossível a tarefa de suprir essa necessidade.

Não que tenhamos desenvolvido a ciência para suprir uma logística, afinal um método científico muito próximo do atual foi introduzido por Aristóteles com o intuito de formalizar o pensamento racional séculos e séculos antes da Primeira Revolução Industrial, quando demos o primeiro passo rumo ao tipo de sociedade que temos hoje. O ponto principal é que a ciência supre muito bem as necessidades do modelo de sociedade adotado hoje e a ausência de métodos alternativos pode ser simplesmente uma consequência desse modelo econômico-social. Afinal, qualquer modelo alternativo, seja de ensino, pesquisa, deve atender ao chamado do capital: ser barato e/ou lucrativo.

No fim das contas, talvez, nessa altura do campeonato, a pergunta mais apropriada não seja se a ciência é ou não a melhor maneira de entender o mundo, mas sim, como queremos nos organizar em sociedade. Se a resposta continuar sendo baseada no crescimento econômico, então, talvez, não haja espaço para a subjetividade fora das artes, porque estaríamos sempre sujeitos às exigências do lucro e da logística.