Cientificismo, Negacionismo e Democracia: Por que é preciso educar

Foto por Andrew McMurtrie em Pexels.com

É muito comum para todos que cursaram o ensino fundamental e médio se lembrar de alguns pontos clássicos das aulas de história, como o Período Feudal, o termo “Iluminismo”, a Segunda Guerra Mundial, dentre outros. Confesso que, forçando muito a minha memória, parece que toda aula era sobre a Idade Média. Talvez por isso eu me lembre, de forma contundente, como que um paradigma cuja religião e o discurso divino eram centrais, após alguns movimentos sociais e filosóficos, começou a mudar com o Iluminismo.

Destaco que houve uma mudança drástica de como a sociedade via a vida e, exatamente por isso, esse processo não se deu da noite para o dia. Como exemplo de resistência podemos pensar na Igreja Católica, que detinha um poder muito grande sobre os reinos, as pessoas e a economia. Ela não queria perder tais influências. Daí, diante da Reforma Protestante, que está intimamente ligada a essas alterações, a Igreja Católica fez um movimento de contrarreforma, na tentativa de conservar os valores que predominavam no pensamento humano.

De toda forma, o século XIX trouxe a industrialização, enquanto o seguinte sedimentou um mundo totalmente mudado, em que o discurso científico buscava responder a todas as questões do universo. Até a alma passou a ter peso (abro parênteses para indicar a linda obra do cinema 21 gramas, cujo nome remete a essa ideia de termos uma alma e ser essa a sua medida em peso).

Advirto o leitor: o texto quer ser rápido, por isso faz saltos e simplificações históricas, necessárias para pôr a questão que o motivou.

Hoje, quase completo um quinto do século XXI, quando a tecnologia e a ciência dominam tanto as nossas vidas que chegamos a discutir se as máquinas poderão ter inteligência por si e escravizar o ser humano num futuro próximo, um movimento em sentido totalmente contrário parece ganhar forças. Aqueles que muitas das vezes são chamados de negacionistas – pessoas que negam conceitos científicos importantes para a sociedade, como os que fazem campanhas contra vacinação, dizem que o mundo é plano ou banalizam os impactos da pandemia causada pelo coronavírus – têm aumentado em número e questionado de forma intensa a ciência e o progresso do conhecimento. Isso preocupa e ainda traz mais problematização.

O primeiro ponto é que me parece insustentável voltarmos a um período cujo conhecimento era pautado pela autoridade religiosa. Não preciso fazer um experimento para saber a resposta das pessoas à seguinte questão: “Você entrou num grande objeto de metal. Ele foi chamado de avião. Você sabe que ele foi construído por um grande líder religioso, que professa a mesma fé que você e não possui qualquer conhecimento científico sobre aviões. Você aceita voar nessa caixa de metal?”

A questão aqui é simples: é improvável que os negacionistas, assim como aqueles que criam vídeos no YouTube contra alguns conhecimentos científicos, não utilizem da ciência esperando que ela funcione a partir dos seus avanços. Essa crença pode até ser inconsciente, mas, na grande maioria das vezes, há uma grande expectativa de que o conhecimento produzido pela ciência funcione e seja utilizado por essas pessoas. Ainda, essas mesmas pessoas provavelmente não aceitariam perder esse conhecimento para substituí-lo por outro que não responda às suas questões cotidianas, como a tecnologia que tem a possibilidade de melhorar suas vidas.

Em alguma medida, é possível afirmar que a grande maioria das pessoas consegue perceber que um leitor de cartas, daqueles que lê o passado e prevê o futuro, não tentará, com o seu conhecimento místico, criar um smartphone. O que nos deixa intrigado é que isso tem se rompido: as pessoas têm desafiado conhecimentos importantes, como as vacinas que garantem saúde contra diversos vírus, na tentativa de desacreditá-los a partir de teorias conspiratórias.

Por outro lado, também houve grandes avanços nos discursos sociais e na percepção da estrutura social. Hoje é fato que temos uma sociedade plural e que múltiplos projetos de vida possuem o direito de serem exercidos sem um julgamento moral rígido, desde que não violem os direitos dos outros. Conservadores até tentam negar direitos diversos, mas temos um pacto social simbolizado pela nossa Constituição e por tratados internacionais. Isso quer dizer que é um direito das pessoas pensar livremente e, inclusive, negar o discurso científico.

Aqui surge a grande questão do texto: em tempos como os atuais, em que discursos contra o conhecimento ganham força e são usados inclusive no âmbito de decisões políticas, qual caminho deveríamos seguir?

Confio na educação.

Compreender que a ciência é falha e deve ser compreendida a partir de seus limites e erro é um ponto importante. Retira dos cientistas qualquer ideia mítica e de um novo líder religioso. Rejeitamos o discurso de autoridade.

Por outro lado, reverberar que existam espaços diferentes entre o discurso da ciência e o religioso, por exemplo, é essencial. Um sujeito que tem uma fé muito grande no Criacionismo tem o direito de professar sua crença, mas, por outro lado, precisa compreender que existem espaços que não poderiam ser preenchidos com o discurso de algo que é tão individual e da liberdade de escolha de cada um.

Apenas como um exemplo rápido: instituições como o casamento não devem ser reguladas socialmente apenas a partir de uma moral com fundo religioso. Inclusive, por que recairíamos na questão de qual religião deveria ditar as ordens de um direito? Ou seria considerado inofensiva uma prática de pretensa cura por uma pessoa que se diz detentor de poderes divinos?

Ah, alguém poderia acertadamente dizer que, se o discurso científico predominar, estaremos também impondo um único tipo de valor. Diante dessa pessoa, eu tenho que concordar que sim. Por isso mencionei que a ciência precisa ser encarada sob seus limites, as pessoas precisam ter a opção de escolhê-la, e daí a necessidade de educação em suas mais variadas formas.

Para tentar trazer uma clareza de sentido: quando falo sobre o discurso científico, penso que a ciência não é neutra. Ela é formada por uma comunidade científica que faz as perguntas, as hipóteses, escolhe os métodos, dentro de outras variáveis que determinam o sentido da ciência. Entretanto, para mim, o discurso científico vai além, ele busca delimitar um pensamento que crê que a ciência é o melhor caminho para solucionar as questões da sociedade e, por isso e pelo seu conjunto de métodos, ele deve sempre sobressair perante outras formas de argumentar. A racionalidade é um mantra para os integrantes dessa comunidade. Talvez, a melhor expressão fosse até mesmo cientificismo.

Recuso a ideia de que a ciência deve ser a bússola das nossas regras sociais de forma imediata e simples. Acredito em lobbys e interesses que trazem ruídos para pesquisas. Acredito em saberes e sabedorias que vão além de métodos rígidos. Daí a grande importância de esferas democráticas de debates e esclarecimento, para que a liberdade de crença e de discurso possam sustentar avanços não totalitários.

Para além do que é considerado como interferência inadequada à ciência, o problema está na presunção de que um discurso é sempre superior ao outro. A democracia real custa caro. Demanda processos de debate e abertura sem fim. Isso implica que, quando uma autoridade – seja ela comprovada cientificamente ou fundada numa fé – se sobrepõe a todas as outras formas de discursos, estamos, de antemão, diante de um traço de autoritarismo.

O cientista não pode ser o novo papa, a ciência não pode ser uma nova religião. A racionalidade não pode ser argumento único para impor um modelo de vida a uma sociedade. Há uma necessidade da compreensão da importância de tudo isso a partir de valores que exigem ética de cada indivíduo. Ninguém foge do peso da responsabilidade para com o Outro. E a maturidade social é necessária para encarar os dilemas que se mostram.

O caminho certamente não é retroceder aos tempos de teorias e ideias que negam a pluralidade discursiva e reconhecimento entre os agentes sociais. Repito, é pelo caminho de uma ética do discurso – ou até mesmo do ouvir – e do educar que poderemos afastar os extremos autoritários, seja da ignorância ou da pretensa luz. A vida é de cores.