Se hoje eu já não me lembro de teu rosto, tua risada nunca me deu trégua

Assim como as linhas de nossas mãos ou como nosso DNA, a maneira como rimos e sorrimos também faz parte de nossa identidade.

Queria ver minha mãe dar sua risada.

Naná foi uma das mulheres que eu escolhi para ser minha avó. Eu a conheci quando eu tinha 3 anos e desde o primeiro encontro ela sempre foi, para mim, Vó Naná. Quando criança, eu a visitava para receber balas de morango que ela guardava em um pote gigante que ficava em cima de sua geladeira vermelha. Adolescente, eu a visitava para lhe contar sobre como eu estava me saindo na escola e para ouvi-la falar sobre os filhos, o marido, o clima e as fofocas da vizinhança. Vó Naná sempre foi uma pessoa sorridente e era muito engraçado vê-la se explodir em gargalhadas. Sua risada era alta e espaçada como tiros. Ao terminar de rir com a boca, minha avó continuava a rir com as mãos: prendia a ponta da língua entre os dentes e começava a me dar leves tapas na cabeça e nos ombros. Era assim o seu riso, uma festa.

Vó Naná sorria com o corpo todo, mas também existem aqueles que sorriem apenas com os olhos. Tem gente que ri alto, tem gente que sorri em silêncio. Tem sorriso que faz as maçãs do rosto crescerem e se avermelharem. Tem risada curta, demorada e risada que contagia. Tem gente que sorri com os lábios fechados e tem gente que sorri com as sobrancelhas arqueadas. Há aqueles que no meio de um choro desatam a rir e há aqueles que durante uma risada começam a chorar. Assim como as linhas de nossas mãos ou como nosso DNA, a maneira como rimos e sorrimos faz parte de nossa identidade.

Quando o álbum branco de Caetano Veloso foi lançado em agosto de 1969, o cantor já estava exilado em Londres. Certamente uma das obras mais bonitas de Caetano, o álbum conta com Marinheiro Só, Carolina, Os Argonautas e Irene. Com letra simples, de poucas linhas e versos extremamente sonoros, Irene é uma grande canção: uma pessoa que está em um lugar que não é seu quer voltar para casa e ver — não apenas ouvir — uma mulher chamada Irene dar sua risada. Não é preciso saber quem é a moça dos versos para afirmar que a música é muito bonita:

Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada

Irene ri, Irene ri, Irene
Irene ri, Irene ri, Irene
Irene

A poesia de Irene fica ainda mais bonita ao se descobrir a história que está por trás da canção. Em 27 de dezembro de 1968, 14 dias após o AI-5 entrar em vigor, Caetano Veloso foi preso por agentes da Polícia Federal em São Paulo. Acusado de ter desrespeitado a bandeira e o hino nacional, foi transferido para o quartel do Exército de Marechal Deodoro, no Rio, e teve a cabeça raspada. Só sairia da prisão em fevereiro de 1969 para, meses depois, ser convidado a se retirar do país e partir para o exílio em Londres. Foi durante o encarceramento no Rio de Janeiro que Caetano Veloso escreveu Irene.

Irene é a irmã caçula de Caetano. Em seu livro Verdade Tropical, em um trecho em que fala sobre os dias na prisão, Caetano descreve a irmã e conta como surgiu a música:

“A figura de minha irmã Irene aparecia com frequência em minha mente como um antídoto contra essas sombras. Irene tinha catorze anos então e estava se tornando tão bonita […]. Mais adorável ainda do que sua beleza era sua alegria, sempre muito carnal e terrena, a toda hora explodindo em gargalhadas sinceras e espontâneas. Mesmo sem violão, inventei uma cantiga evocando-a, que passei a repetir como uma regra.”

E é por isso que a canção agora fica ainda mais bonita e significativa: um sujeito preso evoca o sorriso da irmã como remédio para aliviar o sofrimento de se estar em uma prisão controlada por um regime militar. Se, por um lado, na prisão, temos o enclausuramento, a solidão e a opressão, por outro lado, na risada aberta de Irene, temos o acolhimento e a vontade de estar livre: a risada alegre se contrapondo à tristeza da prisão.

Vovó Naná morreu há 8 anos. Eu ainda consigo me lembrar, com um certo esforço, de seu cabelo curto, de sua pele áspera e da maneira como gotículas de água saíam de sua boca em momentos de empolgação. Mas o tempo é cruel e a névoa do esquecimento já começa a encobrir, em minha memória, a imagem do rosto de minha avó. Felizmente o eco de sua risada não morrerá tão cedo e, na recordação de seu sorriso espontâneo e alegre, Vó Naná sempre poderá renascer para mim.